Violência impacta a sociedade carioca com criminosos à solta

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Publicado domingo, 30 de julho de 2017 as 18:43, por: cdb

Nos tiros cruzados em diversos locais da cidade, policiais também fazem parte das estatísticas da violência, como o cabo Bruno dos Santos Leonardo, de 29 anos.

 

Por Redação, com ABr – do Rio de Janeiro

 

O aumento nos casos de violência, ao longo do último mês, atingiu diretamente os cariocas. Até quem ainda não tinha nascido, foi vítima do descontrole na criminalidade. No dia 30 de junho, o bebê Arthur, que ainda estava no ventre da mãe, foi ferido, na Baixada Fluminense. Ele morreu na tarde deste domingo.

Nas silhuetas dos militares, captadas pelas lentes do premiado fotógrafo Severino Silva, a Igreja da Penha, ao fundo, delimita a violência que tomou conta do Rio
Nas silhuetas dos militares, captadas pelas lentes do premiado fotógrafo Severino Silva; a Igreja da Penha, ao fundo, delimita a violência que tomou conta do Rio

Outro bebê, que também se chamaria Arthur, nem pôde nascer. A mãe, gestante de 3 meses foi atropelada no dia 7 deste mês durante uma fuga de assaltantes. De repente, a cidade acordou para a crise das ações de segurança dos últimos anos, que tinham como vitrine as chamadas unidades de Polícia Pacificadora (UPPs).

Novas tecnologias

Nos tiros cruzados em diversos locais da cidade, policiais também fazem parte das estatísticas como o cabo Bruno dos Santos Leonardo, de 29 anos, ferido na cabeça durante um ataque à Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), na localidade do Telégrafo, no Morro da Mangueira, no dia 17. Na última terça-feira, ocorreu o enterro do 91º policial morto em menos de sete meses, enquanto em todo o ano de 2016, foram 100.

Para Maria Isabel Couto, pesquisadora da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (FGV/ DAPP), a situação da criminalidade culmina, no momento atual, com a crise financeira do estado, embora a deterioração dos indicadores seja anterior à piora das finanças fluminenses. Na visão dela, o problema é de gestão da política de segurança. Lembrou que as atuações das forças de segurança ficaram concentradas no projeto das UPPs, permitindo a atuação de criminosos em outros locais, como a Baixada Fluminense e o interior do Estado.

— Se, enquanto a gente estivesse investindo nas UPPs na capital, a gente também estivesse investindo em novas tecnologias de inteligência, de investigação e de policiamento na Baixada e no interior, provavelmente, essa migração de atividades criminosas não teria acontecido e conseguido se fixar — afirmou.

Crime reorganizado

O que ocorreu naquele momento, de acordo com ela, foi uma espécie de “cessar fogo”, nas brigas entre as facções de tráfico de drogas por territórios na cidade do Rio de Janeiro. O quadro mudou, segundo Maria Isabel, com os sinais de fragilidade das unidades e do órgão.

— Eles (os criminosos das facções) estão passando, claramente, por um momento o de reorganização, de redivisão de territórios da cidade. Estão disputando e brigando para ver quem vai sair mais fortalecido. Estão aproveitando um momento de fragilidade governamental para fazer isso. É um xadrez de território — relata.

De acordo com Maria Isabel, quando o projeto das UPPs foi lançado, havia a promessa de mudança na cultura do policiamento. Este passaria ser focado na proximidade com a população. Deixaria de ser pautado por uma política de guerra às drogas.

— As UPPs acenavam para uma mudança nesse padrão. Numa incorporação do Rio de um padrão de policiamento comunitário. Não foi isso que a gente viu— pontua.

Além disso, segundo afirmou, as contrapartidas em políticas públicas não vieram.

— O que a gente viu é que as contrapartidas, que não são a polícia, foram muito tímidas. E os policiais ficaram quase abandonados nessas UPPs pelo poder público. No início, a gente conseguiu ver a redução dos tiroteios e dos conflitos. Mas, com o tempo, se a única presença que a gente vê é a militarização da vida cotidiana nas favelas, isso tende a esgarçar as relações e tende a recrudescer. Então, a gente viu o retorno às velhas práticas — concluiu.