Velhos ressentimentos da A. Latina contra gringos superam simpatia por EUA

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Publicado quarta-feira, 10 de outubro de 2001 as 18:27, por: cdb

A fumaça ainda cobria o sul de Manhattan quando o presidente brasileiro começou a disparar telefonemas, conta a revista Newsweek.
“Como milhões de latino-americanos, Cardoso tinha assistido à manhã de horror na América e estava convencido de que só com uma grande aliança se poderia restaurar a segurança mundial,” escreve o correspondente Mac Margolis.

“Então, desencavou um documento de meio século de existência – o Tratado Inter-Americano de Assistência Recíproca – e, em questão de horas, conseguiu ter todos os líderes latino-americanos alinhados no apoio à guerra dos EUA contra o terrorismo.

Conquistar as mentes e os corações latino-americanos, entretanto, será bem mais difícil. O ressentimento em relação aos EUA não é nada novo nos países em desenvolvimento. Algumas horas depois dos ataques, em muitas partes do mundo, a reação era muito diferente da de Cardoso – uma espécie de satisfação com o fato de a superpotência mundial ter sido nocauteada.

Os latino-americanos não costumam mais gritar ‘fora Yankees’ como antes, mas uma pitada de ressentimento contra tudo que é gringo sempre existiu e o 11 de setembro parece ter trazido isso à tona.

‘Não sou contra o povo americano, mas os EUA tiveram o que mereciam. Você colhe o que planta’, disse Kiko Netto, estudante de psicologia de 19 anos da Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro.

É verdade que muitos latino-americanos ficaram desolados com a ‘Terça-Feira Negra’ que tirou a vida de muitos compatriotas.

Mas, poucos dias depois dos ataques, um sentimento diferente começou a surgir nas ondas de rádio, nos editoriais dos jornais e nos bate-papos nos bares da região. Uma professora de inglês de São Paulo ficou perplexa ao ouvir seus alunos se dizerem interessados em estudar a ‘linguagem do imperialismo’.

E, em uma manifestação pela paz que reuniu comerciantes árabes, judeus e cristãos no centro do Rio, cartazes pediam que fossem lembradas outras vítimas além dos que morreram nos ataques contra os EUA. ‘150 mil mortos em Hiroshima. Quem fez isso?’,era a pergunta em um dos cartazes. ‘Um minuto de silênciio pelos mortos da América. 59 minutos pelas vítimas da política americana’, dizia outro”.