Vazamento de óleo no Golfo do México serve de exemplo para o Brasil

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Publicado sábado, 1 de maio de 2010 as 11:19, por: cdb

 A tragédia ecológica iniciada no Golfo do México em 22 de abril tem sido noticiada nas últimas 48 horas como em vias de se tornar a maior na história dos EUA. O vazamento de 5 mil barris de petróleo por dia, saindo das profundezas do mar em direção à superfície, deve superar o desastre de fins dos anos 80, quando vazou o carregamento no Alasca do megapetroleiro Exxon Valdez. Zapeando na internet, com graficos e animações incríveis em sites como o a  CNN, vou me inteirando de detalhes jornalísticos e logo mergulho em memórias da história e outras experiências evolvendo a produção petrolífera no Brasil e no Mundo.
 
Alabama, Flórida, Louisiana e Mississippi já decretaram estado de emergência diante do vazamento de óleo numa válvula da British Petroleum a 1 500 metros de profundidade no Golfo do México. A empresa BP reconhece que encontra dificuldades tecnológicas para conter o vazamento na válvula que devia ter se fechado automaticamente quando a plataforma explodiu, matando pelo menos 11 funcionários e afundando em chamas.

 A tragédia é sempre anunciada quando se trata de indústria de petróleo. O vazamento no Golfo do México deve servir de alerta para o Brasil. O vazamento ora em curso tem tudo para ser o maior desastre ambiental produzido pelo petróleo na história do planeta Terra. Isso porque o petróleo que Saddam Hussein fez vazar abrindo válvulas mais de 500 poços no Kuwait, embora com fartura muito maior do precioso ouro negro, aconteceu com a queima do combustível fóssil numa área de pouca biomasssa, ou baixa biodiversidade.

 A BP negou que tenha demorado a reconhecer a grandeza do problema ou que não tenha ou não esteja promovendo todo o esforço possível para conter os danos. Mas a empresa britânica reconhece a gravidade do desafio de fazer cessar o vazamento no leito marinho. E chegou a sugerir que empresas concorrentes ajudem com ideias e tecnologias.

 O petróleo, por sua densidade, sempre flutua na água salgada. Cerca de 300 navios e 6 mil homens e mulheres já estão trabalhando na área atingida. Os números aumentam a cada hora.  O vazamento, na melhor das hipóteses, vai perdurar por mais alguns tenebrosos dias, para alguns, um mínimo de um mês. Mas em ritmo frenético, governo e indústria já iniciaram produção de equipamentos com a hipótese de uma tentativa de contenção do vazamento que exigira cerca de três meses.

 Quando Saddam perdeu a Guerra do Golfo Pérsico, em 1991, havia um temor de que levaria um longo tempo para conter o problema porque eram centenas de incêndios simultâneos os vazamentos ordenados pelo ditador. Mas os especialistas reagiram bem ao desafio e inventaram em tempo real um novo método que permitiu apagar as chamas no deserto em pouco mais de seis meses, quando se temia a queima por vários anos a fio.

 Como o Brasil tem esse vasto potencial off shore, é fundamental que as autoridades acompanhem os desdobramentos da tragédia que se abate particularmente de forma cruel sobre a costa da Lousiana, estado rico em flora e fauna marinha, terrestre e fluvial.

  A dimensão da tragédia norte-americana já se tornou pressão política sobre o presidente Barack Obama. Áreas vizinhas da costa atingida estão liberando água doce do Mississippi para aumentar o volume na foz e enfrentar a pressão do petróleo navegando nas ondas no litoral. Aviões e helicópteros jogam produtos químicos sobre o mar para reduzir danos. Já há 6,5 mil quilômetros de cordões de isolamento que parcialmente seguram o óleo sempre flutuante. Mas as condições do tempo e do mar costumam atrapalhar a contenção, nunca total.

 No fundo do mar, submarinos e estudos para sepultar de improviso a válvula e, ato contínuo, sugar dentro de uma espécie de mega sarcófago de aço e concreto tudo o que ali estiver sob alta pressão, água e óleo. Mas isso leva tempo. A pressão do óleo que vaza vindo de profundezas ainda mais abissais dificulta o trabalho de senão vedação, pelo menos uma apropriação do material (óleo e água) que seria bombeado para navios tanque na superfície.

 Assim como na aviação comercial cada desastre costuma ser, paradoxalmente, uma lição que produz respostas que evitam a repetição de acidentes pelas mesmas causas, a indústria petrolífera precisa desenvolver mecanismos mais eficazes para que uma tragédia ambiental seja pelo menos um caminho doloroso a impedir desastres futuros.

 Pela importância que tem no campo das águas profundas e ultraprofundas, o Brasil precisa abrir o olho nesse setor. E a tragédia nos EUA ocorre num momento em que Brasília dá show de incompetência com relação à Petrobras e as empresas parceiras, que são as multinacionais. O descaso do Brasil com o risco ambiental inerente à extração off shore pode ser vista na própria mídia brasileira, ainda vagarosa em atrelar a explosão da plataforma da BP  com os riscos de algo semelhante no litoral sudeste. A Petrobras já perdeu uma plataforma flutuante, e, 2001, mas sem grandes danos ambientais. Foi a pique porque tinha boias com gás, uma verdadeira quadra de “dirigíveis de hidrogênio a la Zeppellin”, ou seja, a plataforma 36 era antiga, obsoleta, fora do padrão que não tem mais boias com gás. Aquela que afundou era um gigante vetusto, pechincha arrematada no exterior depois de muitos anos de passeio por outros campos petrolíferos na Ásia e até no Canadá, enfim, uma carcaça gigante.

Mas a falha maior que o Brasil registra neste momento é com a política de pretender sonegar os royalties das regiões ameaçadas pela indústria off shore, basicamente o Rio de Janeiro e o Espírito Santo.

 A loucura que o deputado gaúcho Ibsen Pinheiro empreendeu no Congresso, mobilizando seus sequazes ávidos em outros estados não produtores, é uma tragédia anunciada dentro de outras ameaças.

 São Paulo, que ainda não é um grande produtor, como tudo diz que vai ser, não perderia nada com a garfada nos royalties agora porque pouco produz de fato, tem só as descobertas do pré-sal. Tem, claro, os royailties pelos riscos da refinaria de Paulinia, em especial. E São Paulo tem ainda o ICMS da venda de combustível nas bombas, algo que contraria o bom senso tributário, considerando que o imposto de circulação é sempre cobrado no lugar de origem da produção, como ocorre com tudo mais, arroz, feijão, telefonema, cimento, brinquedo, automóvel, etc, , tudo menos com a gasolina e o diesel.

 A retirada de recursos dos royalties do Rio e Espírito Santo é a forma mais covarde que os deputados inventaram para estuprar cariocas e capixabas pelas vias eleitorais e eleitoreiras. Graças a 300 espertalhões de Brasília, estes dois estados se veem ameaçados não só pelos riscos ambientais do petróleo, não só pelos danos sociais que o boom off shore provoca (especulação imobiliária, caos urbano e violência em Macaé, por exemplo). Rio e Espírito Santo estão ficando cheios de dutos subterrâneos, um risco a mais.

 Só do mar capixaba já estamos quase chegando a 300 mil barris por dia. E o que o Espírito Santo ganhou até agora com isso? Só esperança e ameaças. E agora ganha o presente pior, o de grego, a ameaça Ibsen Pinheiro.

 Os EUA inventaram os royalties para as regiões produtoras com senso de justiça e como uma compensação, não como uma discriminação contra estados não produtores. As regiões produtoras precisa de boa educação, boas estradas, segurança social, centros de alta tecnologia, enfim, capacidade de respostas rápidas, porque as tragédias, embora anunciadas, sempre chegam de surpresa.
 
Obama é de Chicago, viveu bom tempo no Havaí e passou uns aninhos de infância na Indonésia. Este país asiático durante a primeira metade do século XX forneceu petróleo para meio mundo. Ingleses e holandeses não lhe deram sequer royalties. Hoje a Indonésia não tem uma gota de óleo e enfrenta sérios problemas socais.
 
 O negro Obama hoje está de olho na ajuda ao Sul, onde há século e meio os fazendeiros escravocratas encararam o Norte moderno numa guerra civil que custou milhões de mortos, mas que garantiu a liberdade e a unidade territorial e afetiva americana. O Havaí, tão distante, e o Alasca do grande desastre, não se sentem sós. O Alasca tem os royalties. O Havaí, além do vulcão, tem, para além do turismo do surf e das águas cristalinas do Pacifico, o papel de ser um posto avançado da pujança naval norte-americana.

 Além de covarde, por ser eleitoreira no ano eleitoral, a iniciativa de Ibsen Pinheiro tem ainda esse malefício de desunir o Brasil, de provocar ciúmes entre as unidades da Federação, algo terrível a manchar a biografia deste deputado porque a terra gaúcha, como fronteira, sempre foi vista com admiração, um baluarte da nacionalidade brasileira.

 O Brasil, concluindo o que não tem fim, precisa proteger seu mar continental, e a melhor forma é aparelhar o litoral sudeste com 50% dos royalties. E os outros 50% que o Planalto Central divida com estados não produtores. O momento é excelente para Lula e Dilma Rousseff sepultarem de vez essa estapafúrdia por trás das ambições de parlamentares liderados por esse Ibsen, que tem nome de um grande autor de  teatro, o norueguês que tratava do compromisso do ser humano com a sua própria consciência, mas que, pelo conjunto da obra do deputado, talvez este nome, Ibsen Pinheiro, devesse batizar o próximo primeiro grande acidente envolvendo petróleo no Rio de Janeiro ou no Espírito Santo.

Alfredo Herkenhoff é jornalista, foi editor da agência UPI no Brasil, redator, secretário e colunista do Jornal do Brasil. Atualmente é produtor cultural e edita o Correio da Lapa.

Texto revisado às 15h27

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