Vacas superfaturadas colocam em risco emprego do ministro Picciani

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Publicado terça-feira, 18 de outubro de 2016 as 19:28, por: cdb

Em seu depoimento, Tania Fontenelle disse que trabalhou na empreiteira por cerca de 30 anos e deixou o emprego em 2015. O fato não a impediu de participar do acordo de leniência da empreiteira com o Ministério Público Federal (MPF)

Por Redação – de Curitiba e Rio de Janeiro

O emprego do ministro do Esporte, Leonardo Picciani, está em risco desde a manhã desta terça-feira. Ele e a família, proprietários da empresa Agrobilara Comércio e Participações estão citados na Operação Lava jato. Ex-funcionária da empreiteira Carioca Engenharia, Tania Maria Fontenelle denunciou todos eles por vender “vacas superfaturadas”. A operação comercial visava abastecer o caixa 2 da construtora, denunciou a funcionária.

Leonardo Picciani
Leonardo Picciani foi eleito com diferença de um voto

Em seu depoimento, Tania Fontenelle disse que trabalhou na empreiteira por cerca de 30 anos e deixou o emprego em 2015. O fato não a impediu de participar do acordo de leniência da empreiteira com o Ministério Público Federal (MPF). A confissão de culpa foi homologada em fevereiro deste ano pelo juiz Sérgio Moro. Na quinta-feira passada, o magistrado ampliou o acordo a mais oito executivos da empreiteira.

Delação

Em abril, na condição de ex-funcionária, Fontenelle disse que “recebia solicitações de acionistas e diretores da Carioca Engenharia. Era para providenciar dinheiro em espécie e assim procedia”. A ré no processo confessa que “para gerar tais recursos, quando eram solicitados, utilizava a contratação de outras empresas prestadoras de serviços, celebrando contratos simulados”.

A ex-funcionária afirmou, ainda, que as vacas compradas da empresa dos Picciani foram efetivamente entregues. Mas parte do valor pago foi devolvido, em espécie, à Carioca Engenharia.

— Simplesmente atendia as solicitações de obter dinheiro em espécie e entregava a quem fazia a solicitação ou a pessoas da empresa por eles indicadas — disse Tania, aos investigadores

Segundo o termo de depoimento da ex-funcionária, ela ocupou cargo de diretora financeira. “Obviamente, (ela) sabia que a destinação dessas quantias era ilícita. Para corrupção ou para doação eleitoral não-declarada”, dizem os autos. Ainda segundo afirmou, no processo, ela não manteve “contabilidade ou controle disso, pois estava há muitos anos na empresa. Tinha a confiança dos acionistas e eram recursos não oficiais que normalmente entregava aos solicitantes”. Ela disse que, após deixar a empresa no ano passado, passou a prestar consultoria à Carioca.

O acordo de leniência, delação premiada da empresa, inclui os donos da Carioca, Ricardo Pernambuco e Ricardo Pernambuco Júnior. Eles fecharam acordos de colaboração na Operação Lava Jato. Entre as denúncias apresentadas pelos executivos está o pagamento de propina ao deputado cassado Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Dessa vez, na obras do Porto Maravilha, no Rio.

Processo

Em contrapartida pelos negócios ilegais, segundo a ex-funcionária da Carioca, os envolvidos nas empresas recebiam comissões.

— Essas empresas recebiam da Carioca Engenharia os pagamentos previstos nos contratos, retinham a parte referente à real prestação de serviços, quando havia, ficavam com uma comissão entre 25% e 30% e devolviam em espécie o restante — relata.

Além do ministro, integram o quadro societário da Agrobilara o seu pai, o peemedebista Jorge Picciani, presidente da Assembleia Legislativa do Rio, e seu irmão, Rafael Picciani, secretário de coordenação de Governo da Prefeitura do Rio. O presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, Jorge Picciani (PMDB), pai do ministro do Esporte, Leonardo Picciani, afirmou na noite passada, em nota, que vai processar a ex-funcionária da Carioca Engenharia, Tania Fontenelle.

“A Agrobilara, por mim presidida, está à disposição das autoridades para comprovar a improcedência das afirmações desta senhora, que será por nós processada e instada a provar que teria havido superfaturamento e/ou devolução de recursos em espécie da nossa parte, caso as informações do jornal a propósito de possível acordo de leniência se confirmem”, afirmou Jorge Picciani.

“Desconhecemos quem seja essa senhora, que – caso a informação dada ao jornal seja verídica – está praticando um crime ao mentir para as autoridades. A família proprietária da Carioca é, como se sabe, antiga e conhecida criadora de gado Nelore. E a Agrobilara, como se sabe igualmente, uma das principais fornecedoras de genética de Nelore P.O. do Brasil.”

Comitiva de Temer

O líder peemedebista fluminense Jorge Picciani também nega que a empresa tenha superfaturado qualquer venda de gado. “Todas as vendas feitas seguiram rigorosamente os preços praticados no mercado, e eventualmente até abaixo dele, com notas fiscais emitidas mediante cobrança bancária e impostos devidamente recolhidos. Todas as transações podem ser comprovadas, assim como as entregas e transferências de propriedade, através do livro de registro da Associação Brasileira de Criadores de Zebu (ABCZ)”, acrescenta a nota

Dados da Receita Federal comprovam que a empresa da família Picciani tem capital social de R$ 40 milhões. Procurado pela reportagem do Correio do Brasil, o Ministério do Esporte, por meio de sua assessoria, informou que Leonardo Picciani está na comitiva do presidente de facto, Michel Temer, no Japão. A assessoria de imprensa da Prefeitura do Rio, por sua vez, afirmou que lida apenas com os assuntos institucionais da Secretaria de Coordenação de Governo.