Uma guerra colonial

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Publicado sexta-feira, 14 de março de 2003 as 19:32, por: cdb

Os Estados Unidos estão prestes a cometer um dos maiores massacres da história: a guerra contra o Iraque. Segundo as Nações Unidas, cerca de 10 milhões de iraquianos sofrerão diretamente as agruras desse genocídio, entre mortos, feridos, refugiados e traumatizados. Hitler é lembrado como o grande carniceiro do século 20 por ter exterminado 6 milhões de judeus.

As manifestações populares contra a guerra, nas mais diversas partes do mundo, têm acusado George W. Bush de trocar sangue por petróleo. É uma das verdades, já que em 2022 os Estados Unidos comprarão, no exterior, dois de cada três barris consumidos. Bush declarou que a segurança energética é uma das principais estratégias de sua política externa.

No entanto, o Pentágono tem uma geoestratégia muito mais importante que a dominação do petróleo iraquiano, qual seja o controle de uma região que é o centro do poder mundial: a Euronásia. Hitler e Stálin, nas negociações secretas ocorridas em novembro de 1940, já haviam acordado em excluir os Estados Unidos da Euronásia, pois não queriam encontrar obstáculos em seus planos de conquista.

A potência que dominar a Euronásia, segundo Brzezinski, poderá controlar duas das três regiões mais produtivas do mundo; 75% da população terrestre; 60% do PNB global; três quartos dos recursos energéticos conhecidos; seis das economias mais importantes da Terra; seis países com armas nucleares; dois com uma densidade demográfica enorme e aspirações hegemônicas regionais; enfim, todos aqueles Estados capazes de desafiar a supremacia estadunidense. O poder acumulado dos países da Euronásia chega a superar o do Pentágono algumas vezes. Logo, poderia estar ali um rival de Washington (Zbigniew Brzezinski, El gran Tablero Mundial, Barcelona, Paidós, 1998).

Os Estados Unidos, durante a Guerra Fria, utilizaram-se da Europa para conter e controlar parte da Ásia. O Plano Marshall, a Organização do Tratado do Atlântico Norte, os acordos militares bilaterais foram algumas das estratégias usadas. No entanto, com o desmoronamento da União Soviética, o antiamericanismo francês se torna política de Estado e o desejo de independência alemã vira ousadia de alguns de seus dirigentes. Por isso, uma Europa em expansão, que se converta em uma cabeça de ponte para a dominação estadunidense da Ásia, mostra, a cada dia que passa, sinais de resistência. A queda dos símbolos de dominação dos Estados Unidos, no 11 de setembro, foi comemorada com júbilo em círculos políticos restritos europeus. Daí a necessidade de uma guerra não apenas contra o Iraque, mas também de submissão européia.

Esse genocídio – política de destruição em massa e sistemática de um povo e de sua nação – trará conseqüências imediatas no conjunto das relações internacionais: a) descrédito iraquiano generalizado dos organismos internacionais multilaterais, de modo especial as Nações Unidas; b) aumento do terrorismo de grupos em proporção direta ao terrorismo estatal; c) crescimento do sentimento antiamericano, que em um segundo momento poderá se transformar em uma consciência antiimperialista; d) possibilidade de potências regionais medianas aumentarem sua hegemonia em contraposição ao poder imperial.

E a população dos Estados Unidos que atitude tem diante desse remapeamento do mundo que dá ao seu presidente um poder sem limites e um domínio sem igual?

O historiador Paul Kennedy mostra que há um distanciamento muito grande entre os políticos e intelectuais conservadores e o estadunidense comum. As amostragens de opinião, realizadas ao longo de 2002, indicam, cada vez mais, um público prudente e internacionalista. Por sua vez, as pesquisas de deliberação, feitas com pessoas que se reúnem durante um fim de semana para debater em pequenos grupos assuntos internos e externos, com assessoria de especialistas e leituras previamente preparadas, apresentam um resultado ainda mais desfavorável aos planos imperialistas e neocoloniais da Casa Branca. Entrevistados antes e depois de sua reunião