Uma antipatia gratuita

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Publicado quarta-feira, 20 de maio de 2015 as 15:00, por: cdb
Uma história crõnica de antipatia
Uma história crõnica de antipatia

Não adiantava ela ser uma santa. Meu tio-avô detestava a Beth, melhor amiga de sua mulher Geni.
-Que foi que ela te fez, criatura?
-Não gosto e pronto, acabou-se.
Tudo terminava em discussão à mesa quando a Beth vinha almoçar. Foi assim, contou minha tia-avó, quando o Barreto Pinto,deputado cassado do PTB, apareceu de cueca, paletó e gravata borboleta, em 1946, através de um golpe da revista “O Cruzeiro”.
-Pouca vergonha comentou a Beth, Não se tem mais respeito.
Já tio Eugênio achava a única reportagem interessante da revista. Outra vez se desentenderam por causa da música Chiquita Bacana. “Não usava vestido, não usava calção?”
Preocupava-se a Beth com as crianças enquanto tio Eugenio nos ensinava a letra: “ se veste com uma casca de banana nanica…”
Beth era devota de S. Judas Tadeu e frequentava diariamente a sua igreja.
-Como é que ele aguenta, Geni? Só sendo santo mesmo.
Beth fazia tudo pra agradar: pé de moleque, doce de laranja, biscoito de nata. Qual!…Tio Eugenio não comia. Detestava a Beth.
-Tambem é filha de Deus, criatura!
-Com aquele nariz, Geni?
Um dia faltou parceiro pra jogar Pif-Paf e tia Geni chamou a Beth pra tapar buraco.
-Chamasse o Cosme.
-Onde já se viu chamar o porteiro pra jogar com as visitas?
-Melhor que aturar a Beth.
No Natal ela levou um bolo de nozes e tio Eugenio não resistiu trancou-se no banheiro e comeu até passar mal.
-Por que é que ele me odeia, Geni?
-Qual nada, criatura! No fundo, no fundo, ele adora você!
Quando a secretária do tio faltou, Beth se ofereceu pra bater à máquina, mas tio Eugenio mandou-a pra casa, “Bateu espaço dois, eu queria três!
A viagem à Caxambú foi um desastre. Depois que o garçon Fioravante morreu de repente, tio Eugenio foi bem cedinho assustar a Beth na Fonte de São Pedro: “Avante! Avante! Quem fala aqui é o Fiô.” Murmurou ele no ouvido de Beth que desse dia em diante passou a beber água da fonte sulfurosa que tanto detestava. Depois mandou um bilhete pro coronel reformado do quarto 505 em nome da Beth: “estou irremediávelmente apaixonada por você.” O que fez o militar mudar de hotel com a família.
Meses depois tio Eugenio ficou doente. Problema de coração. Mandou chamar a Beth. “Arrependeu-se” pensou Geni, comovida.
Beth chegou nervosa, de preto. Apesar de tudo, nunca guardara rancor. Tia Geni levou-a ao quarto do marido, deixando-os a sós.
-Chega mais perto. Pediu o moribundo. Beth se aproximou, chorosa. “Agora senta aqui ao meu lado.” Beth obedeceu. “Se aproxima mais.”
Quando a Beth chegou o rosto bem perto do dele, tio Eugenio levantou a cabeça e deu-lhe uma dentada no nariz, sussurrando: “nariguda!” , antes de cair duro pra traz.

Maria Lúcia Dahl, atriz, escritora e roteirista. Participou de mais de 50 filmes entre os quais – Macunaima, Menino de Engenho, Gente Fina é outra Coisa – 29 peças teatrais destacando-se- Se Correr o Bicho pega se ficar o bicho come – Trair e coçar é só começar- O Avarento. Na televisão trabalhou na Rede Globo em cerca de 29 novelas entre as quais – Dancing Days – Anos Dourados – Gabriela e recentemente em – Aquele Beijo. Como cronista escreveu durante 26 anos no Jornal do Brasil e algum tempo no Estado de São Paulo. Escreveu 5 livros sendo 2 de crônicas – O Quebra Cabeça e a Bailarina Agradece-, um romance, Alem da arrebentação, a biografia de Antonio Bivar e a sua autobiografia,- Quem não ouve o seu papai um dia balança e cai. Como redatora escreveu para o Chico Anisio Show.Como roteirista fez recentemente o filme – Vendo ou Alugo – vencedor de mais de 20 premios em festivais no Brasil.

Direto da Redação, editado pelo jornalista Rui Martins