Um Apartheid Silencioso

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Publicado domingo, 29 de maio de 2011 as 11:40, por: cdb

Por Nicolas Rosa 29/05/2011 às 14:22

Artigo sobre a situaçao do transporte em Salvador.

Deslocar-se em Salvador,atualmente,está cada vez mais caro.Os sucessivos aumentos no transporte,outorgados em ritmo semestral,fizeram o valor da passagem pular de R$ 0,80,em 2000,para os R$ 2,50 atuais,aumento de mais de 310 % em 11 anos.

O custo mensal de manter o transporte de uma criança,fazendo ido e volta para a escola,pagando inteira,era de R$ 32,enquanto que hoje,o mesmo custo,com meia passagem,é de R$ 50.Considerando-se que nem todas as crianças peguem apenas ida e volta,e sim três ou quatro passagens por dia,e que várias delas tem de pegar condução para atividades extra-escola,e temos um custo que pode chegar aos R$ 120.Aproximadamente 22% do atual salário mínimo,por uma criança.

Diante desses dados,pode se chegar a conclusão,que na nossa época,para se manter uma vida de classe média baixa,e ficar sempre devendo dois meses,ora para a empresa de água,ora para a de energia,uma família com filhos precisa ter rendimentos de classe média alta.Com o crescente do custo de vida,que sempre dá um jeito de manter os aumentos de salário a uma respeitável distância de quatro meses de atraso,ter filho na escola corre o risco de se tornar um privilégio,não só de fato,mas também em lei.
Pois,se além de pagar todas as contas,uma família padrão(2 a 5 mínimos de renda) ainda consegue fazer as crianças chegarem aonde estudam,por um valor equivalente a um bom kit de material escolar,e uma boa fração da mensalidade de uma escola privada,essa família só pode mesmo pertencer a algum tipo de nobreza,senão de sangue,porém moral.
Aquelas que tem mais de duas crianças,especialmente,terão de fazer um grande corte nos superflúos,e nos pequenos luxos e lazeres,que costumam ser pagos com o que sobra das contas.Literatura,cds,revistas,uma ou outra hortaliça orgânica,a ida mensal ao cinema com os amigos.Todas essas coisas,mesmo nas famílias em melhor situação,deixarão de ser feitas,ou serão feitas menos vezes.
O crescimento constante do custo de vida,carga ao qual o aumento do transporte é adicionada com toda a proteção jurídica,enquanto o próprio poder de compra dos cidadãos não goza de tais garantias,pode aprofundar ainda mais a estratificação econômica que já existe na cidade,criando ainda mais divisões entre as pessoas,num municipio aonde as tensões sociais já são mantidas em banho-maria por programas de assistência e policiamento ostensivo. (…)

Por Nicolas Rosa

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