Ucranianos lembram da Grande Fome Artificial que matou mais de 5 milhões

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Publicado sábado, 22 de novembro de 2003 as 13:40, por: cdb

Holodomor . O nome causava arrepios nos líderes da extinta União Soviética: era um pedaço de história que os soviéticos teriam apagado, não fossem as conseqüências graves de suas ações. Este foi a Grande Fome Artificial da Ucrânia que, em dois anos, matou entre cinco e sete milhões de ucranianos, o equivalente ao número de judeus dizimados no Holocausto nazista.

Nesta sexta-feira, comunidades ucranianas no mundo inteiro lembraram os 70 anos do início da fome, provocada por uma política agressiva de coletivização da terra comandada pelo líder comunista Josef Stálin.

– Os que mais sofreram foram os pequenos e médios produtores, que tiveram todos os bens leiloados-  diz Yuriy Demydenko, secretário de assuntos culturais da embaixada da Ucrânia em Brasília.

No Brasil, os filhos da diáspora ucraniana somam 400 mil descendentes, a maioria concentrada na região sul do País, onde o clima temperado ainda é considerado quente por um povo acostumado com temperaturas de 20 graus negativos ou até menos. O Paraná concentra 90% dessa comunidade, que começou a chegar ainda no tempo dos czares russos em busca de terras gratuitas. Cinco gerações se passaram desde a vinda das primeiras famílias. Em Prudentópolis, no interior do estado, hoje é dia de luto para a maior parte das famílias: 75% da população da cidade tem sangue ucraniano. A grande maioria perdeu parentes no Holodomor. A língua falada pelos tetravôs e bisavôs ainda pode ser lembrada nas ruas, mesmo que seja pelo sotaque carregado que invade o português.

Na pequena Pato Branco, alguns idosos lembram com horror do tempo da Grande Fome. “Eles eram crianças e vieram com os pais para o Brasil em busca de terras e de comida”, conta Vitório Sorotiuk, presidente da Representação Central da Comunidade Ucraniana no Brasil. Ele prevê um grande movimento hoje nas igrejas católicas de orientação bizantina ou ortodoxas da região Sul.

– A melhor maneira de homenagear as vítimas da Grande Fome seria o reconhecimento das nações de que houve um crime contra a humanidade entre os anos de 1932 e 1933 na Ucrânia- diz o advogado.

Trinta países já reconheceram o fato assinando o item 117 da agenda das Nações Unidas, levado ao secretário-geral da organização, Koffi Annan, no dia 7 de novembro. Entre os signatários, estão a Federação Russa, os Estados Unidos, a Guatemala e o Timor-Leste.

O Brasil ainda não reconheceu o genocídio, mas representantes da comunidade ucraniana esperam que o governo faça isso em breve. “Poderia ser até mesmo hoje”, especula Sorotiuk, lembrando que abaixo-assinados com 10 mil nomes foram entregues recentemente ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao presidente do Congresso, José Sarney, com o pedido de reconhecimento.

Relações com o Brasil

O gesto será bem visto pelo governo ucraniano que, especialmente depois da construção da base de lançamentos de foguetes em Alcântara, no Maranhão, considera as relações bilaterais com o Brasil como estratégicas.

– O Brasil é sem dúvida o mais importante parceiro da Ucrânia na América Latina- avalia o embaixador do país em Brasília, Yurii Bogaievskyi.

Prova disso é que nos últimos três anos, o presidente ucraniano veio a Brasília duas vezes. Em meados do ano que vem, Lula deve retribuir a visita ao colega Leonid Kutchma. No Congresso Nacional, o grupo parlamentar Brasil-Ucrânia, liderado pelo paranaense André Zacarow (PDT/PR), analisa formas de melhorar o intercâmbio entre as duas nações. Na visita do ministro Roberto Amaral, da Ciência e Tecnologia, a Kiev, foi formado um comitê bilateral, que se reunirá pela primeira vez no ano que vem na capital ucraniana.

Dados do Ministério das Relações Exteriores apontam que em 2002, o volume de trocas entre os dois países foi de US$ 111 milhões. Neste ano, já ultrapassa US$ 180 milhões.

-O progresso foi significativo, mesmo assim é preciso variar mais os produtos- comenta Mário A