Turistas em Paris buscam chaves para decifrar Código Da Vinci

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Publicado quarta-feira, 1 de setembro de 2004 as 13:56, por: cdb

Uma coisa engraçada está acontecendo a caminho da Mona Lisa. Os visitantes do museu do Louvre, em Paris, que abriga o quadro mais famoso do mundo, começaram a perguntar aos guias turísticos sobre o best-seller de Dan Brown “O Código Da Vinci”.

O livro começa com o assassinato do curador do museu, Jacques Saunière, na Grande Galeria do Louvre, e conduz o leitor num percurso excitante repleto de referências históricas, religiosas e às obras do pintor renascentista italiano Leonardo da Vinci.

Visitantes carregando cópias do livro vêm lotando o Louvre e a igreja de Saint Sulpice, em Paris, que abriga o marcador de meridiano e o obelisco de pedra que desempenham um papel chave na busca pelo Santo Graal, no livro.

Os guias turísticos não demoraram a perceber o potencial da situação e começaram a oferecer passeios que exploram os locais mencionados no livro e suas teorias sobre as obras de arte de Da Vinci, incluindo a enigmática Mona Lisa.

A historiadora de arte Ellen McBreen, fundadora da empresa de passeios turísticos Paris Muse, lançou o roteiro “Decifrando o Código Da Vinci no Louvre” em fevereiro. Hoje o roteiro é responsável por metade de seus negócios — cerca de 100 passeios por mês, atendendo principalmente a turistas norte-americanos.

O interesse por “O Código Da Vinci” não dá sinais de estar diminuindo. Existem 8 milhões de cópias do livro em circulação, uma adaptação para o cinema está sendo rodada e há toda uma “indústria” de livros que derrubam as teorias polêmicas expostas no trabalho de Dan Brown.

Como outros acadêmicos, McBreen contesta algumas das idéias de Brown. Mas não espere ouvir palestras pedantes durante seu passeio turístico. A historiadora de 34 anos inclui apartes bem humorados e incentiva os participantes a expor suas opiniões sobre o livro.

“Não deixamos de levar em conta o prazer proporcionado pelo livro”, explicou, contemplando um muro repleto de obras-primas de Da Vinci.

“Embora nosso objetivo seja ajudar as pessoas a distinguir fatos da ficção, percebemos que simplesmente expor conhecimentos tradicionais para corrigir as idéias de Dan Brown seria monótono e pretensioso. A idéia é que o roteiro seja uma descoberta interativa, uma troca de idéias.”

A norte-americana Laura Naramore fez o passeio na companhia de sua mãe e tia. E achou um ótimo antídoto contra os roteiros enfadonhos comumente oferecidos a muitos turistas.

“Foi a única vez em que estive em um museu e saí me sentindo cheia de energia”, contou.

Naramore descobriu que a Mona Lisa não fica exposta no lugar descrito no livro e que Dan Brown modificou outros detalhes para facilitar a trama, mas as inconsistências não a incomodaram.

“Foi como assistir a um documentário tipo ‘making of”‘, contou. “Foi parte da diversão da descoberta.”

Nem todos aplaudem a abordagem adotada por Dan Brown em relação à verdade histórica. Alguns católicos consideram “O Código Da Vinci” blasfemo, especialmente a parte do livro que diz que Jesus Cristo se casou com Maria Madalena.

Na igreja de Saint Sulpice, o padre Paul Roumanet pregou uma placa para os estimados 10 mil fãs do livro que já visitaram a igreja desde a Páscoa, em busca de pistas.

“Contrariamente às alegações fantasiosas contidas num best-seller recente, esta igreja não é remanescente de um templo pagão”, diz a placa.

Ela também especifica que as iniciais P e S presentes numa janela circular se referem a São Pedro e São Sulpício, e não ao “imaginário” Priorado de Sion, a sociedade secreta que, segundo o livro, seria encarregada de proteger o Santo Graal.

O padre observa, com ironia, que, até agora, o aumento dos visitantes não trouxe nenhum benefício material para a igreja, partes da qual precisam de restauração urgente.

“Alguns guias turísticos em Paris estão cobrando pelas visitas à igreja. Outro dia eu disse a um deles que, se me desse 10 por cento de seus lucros, eu estaria fazendo uma fortuna”, comentou.