‘Todos contra o Echelon’ Ou como entupir a bisbilhotice dos EUA

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Publicado sábado, 20 de outubro de 2001 as 15:28, por: cdb

TODOS CONTRA O ECHELON

Estava eu a apreciar uma tangerina em uma praça de Tânger (daí o nome árabe da fruta) quando um caroço, não sei se por descuido dele ou meu, resolveu se abrigar nos arredores de um dente que havia perdido a restauração. O mal estar causado me obrigou, instintivamente, a cuspir para longe o incômodo. Um velho que passava no local, assistiu a cena e, de imediato, com ar de desaprovação falou paternalmente: ” Filho, trate com respeito a semente, lembre-se que dentro dela existe um laranjal”
A Internet é a semente que pode gerar infinitos caminhos desde que tratada com o devido respeito. E é justamente para que ela não perca essa qualidade que no próximo dia 21, domingo, internautas de todo o mundo, unidos pelo ideal de liberdade, tentarão congestionar o Echelon, criado por mentes arrogantes que buscam suprimir a privacidade dos cidadãos. Esse sistema foi criado pela NSA, agência de segurança americana para espionar pessoas, entidades, empresas e países de todo o mundo que utilizam quaisquer sistemas eletrônicos para se comunicar. O Echelon possui um dicionário capaz de decodificar milhões de palavras por minuto relacionadas com a economia ou com organizações que lutam por um mundo melhor. Um exemplo citado em meu artigo anterior, relata que em 1994 o então primeiro ministro francês Edouard Balladour acertou com a Arábia Saudita a assinatura de um megacontrato de fornecimento de Airbus e de armamentos no valor de 10 bilhões de dólares. Além do dinheiro oficial, haveria o barani (por fora). O Echelon interceptou a oferta, Washington “protestou” (dizem que baranou mais) e o contrato acabou ficando com a McDonnell-Douglas. Em outro exemplo, cito que também o Brasil não escapou da vigilância e novamente os franceses foram prejudicados. Quando já davam como certo o fornecimento de radares para o Sistema de Vigilância da Amazônia (SIVAM), novo “protesto” de Washington. Teria sido tão substancial esse “protesto”, que estremeceu as relações entre o Brasil e a França, que viu a sua Thomson-CSF ser superada pela americana Raytheon. É evidente que deve ter havido inúmeros outros casos, mas até o momento os protestos vieram a público graças ao prejuízo dos empresários franceses. O Parlamento Europeu, por sua vez, alertou que todas as mensagens via Internet, telefones ou faxes estão totalmente sob o controle do Echelon. A Microsoft e o Pentágono também foram acusados (vide meu artigo anterior). Além de espionar empresas e entidades como a Anistia Internacional, Greenpeace, Médicos-Sem Fronteira, ETA, IRA, Hizbollah, Hamas, Embraer, Farc, Amazônia, e mais recentemente Al-Ká’ida, Bin Laden, Revolução, Repórteres-Sem-Fronteiras, milhares de outras palavras fazem parte do “Dicionário Echelon”. Por isso, internautas de todo o mundo realizarão no próximo domingo, 21, o protesto. O texto não precisa ser coerente e o destinatário pode ser o próprio remetente. Um exemplo: “O presidente dos Estados Unidos é de morrer de rir”. Pode ser em qualquer língua, porque o Echelon imediatamente decodificará a palavra presidente dos Estados Unidos, morrer. Ou então Yásser Arafat não apóia o Hamas. O “dicionário” ressaltará Arafat e Hamas. Ou ainda, a “Amazônia é nossa, fora com o bioterrorismo”.
É a primeira vez que a humanidade se une para lutar contra a censura. A participação de cada um é importante. Afinal, basta uma gota para o sabor do oceano se manifestar.
Georges Bourdoukan é jornalista e escritor, autor de A Incrível e Fascinante História do Capitão Mouro e de O Peregrino.