Timidamente, questão da Previdência entra na campanha nos EUA

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado sábado, 25 de setembro de 2004 as 09:07, por: cdb

É o chamado “terceiro trilho” da política norte-americana — um assunto de alta voltagem, que costuma eletrocutar os políticos que ousam tocar nele, da mesma forma que as linhas de transmissão elétrica instaladas entre os trilhos dos metrôs, que matam usuários desavisados.

Esse terceiro trilho é a Previdência Social, que estará com o caixa a zero em 2042, por causa do pagamento de aposentadorias à enorme geração do “baby boom”, aquela que nasceu logo depois da Segunda Guerra Mundial.

O problema entrou timidamente na campanha eleitoral à Presidência nesta semana, com a crítica do candidato democrata, John Kerry, à reforma proposta por seu adversário republicano, George W. Bush — uma tentativa de atrair o presidente para perto do tal “terceiro trilho.”

Bush propõe que contribuintes mais jovens destinem parte da sua contribuição previdenciária a fundos privados, que podem colocar o dinheiro em investimentos mais rentáveis, como o mercado de ações.

Simpatizantes da proposta dizem que o lucro adicional poderia fechar o rombo da Previdência sem a necessidade de elevação de impostos ou redução de benefícios para atuais e futuros pensionistas.

Kerry, que não ofereceu uma proposta, mas prometeu não reduzir benefícios nem a idade mínima para a aposentadoria, disse que o plano de Bush vai “roubar” 2 trilhões de dólares do sistema ao longo da próxima década e vai beneficiar Wall Street em até 940 bilhões de dólares nos próximos 75 anos.

“As únicas pessoas que se beneficiam do esquema da Previdência de George Bush são os interesses especiais”, disse o democrata nesta semana.

Tim Adams, coordenador de políticas da campanha de Bush, afirmou que o presidente não deu aval a nenhum plano específico e que as cifras citadas por Kerry estão “selvagemente exageradas”.

“Eles podem dar chutes sobre concepções teóricas, mas ou ele está disposto a consertar o sistema ou não está. E, se estiver, então deve apresentar um plano”, afirmou Adams. “Até lá, é um jogo de um só lado.”

A campanha de Kerry reagiu rápido. “Ele faria as escolhas difíceis, necessárias para restaurar a nossa disciplina fiscal”, disse Jason Furman, estrategista econômico do candidato. “Se pudemos controlar os gastos públicos e reduzir o déficit, estaríamos em posição muito melhor para lidar com nossos desafios fiscais de longo prazo.”

Kerry baseou suas acusações em um estudo do economista Austan Goolsbee, da Universidade de Chicago, que examinou a proposta apresentada pela comissão bipartidária nomeada em 2001 por Bush para analisar a questão.

A Casa Branca reconheceu que a proposta faria a dívida pública explodir nas próximas três décadas, até que o novo sistema fosse auto-sustentável.

Atualmente, as contribuições feitas pelos trabalhadores da ativa servem para cobrir as despesas dos pensionistas. Ao permitir que alguns contribuíssem para fundos privados, o governo teria de arcar com a diferença. Para isso, teria que obter empréstimos, reduzir benefícios ou elevar impostos.

O novo sistema também iria antecipar o dia em que os benefícios a serem pagos comecem a superar o valor arrecadado.

Economistas dizem que os custos da transição entre os sistemas poderia ultrapassar os 2 trilhões de dólares. Críticos temem que, se o governo tiver de obter empréstimos para cobrir a diferença, as taxas de juro subiriam, prejudicando a economia como um todo.

Em seu estudo, Goolsbee considerou que as taxas de administração morderiam 0,8 por cento do valor dos fundos privados a cada ano. No final de uma vida de trabalho, isso provocaria uma redução de 20 por cento no valor dos benefícios, em média.

Mas defensores da proposta dizem que essas taxas seriam amplamente compensadas pelos lucros obtidos no mercado financeiro. “Que importância tem se Wall Street ganha dinheiro, caso todo mundo esteja melhor”, questionou Michael Tanner, do Instituto Cato, de viés liberal.

Mas os críticos também lembram que essas vantagens podem sumir em caso de quebra no merca