Teste atômico feito há 20 anos afeta crianças hoje

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Publicado domingo, 31 de agosto de 2003 as 10:02, por: cdb

Já se passaram mais de 20 anos, mas desde então não nascem crianças saudáveis na longínqua aldeia siberiana de Borojal, onde o extinto regime soviético ordenou uma explosão nuclear subterrânea que condenou a localidade, situada perto do lago Baical.

A explosão, que ocorreu em 31 de julho de 1982 a centenas de metros de profundidade, não descobriu jazidas de urânio, petróleo ou gás, mas condenou os moradores de Borojal a viverem sob os efeitos da radiação, denunciou esta semana o jornal Trud. “Em Borojal já não restam adultos testemunhas do teste, todos morreram”, disse ao jornal Irina Tolmacheva, a única parteira que ainda exerce a profissão nesta aldeia da província de Osinsk, na região russa de Irkutsk, sul da Sibéria.

“Quando comecei a trabalhar em Borojal, 12 anos antes do teste nuclear, a maioria das crianças nascia saudável. Depois da explosão, as mulheres começaram a parir bebês doentes e com deformações genéticas”, afirmou Tolmacheva. Anos depois, a versão oficial era de que a explosão havia sido realizada para fazer uma “pesquisa profunda da crosta terrestre”, dentro de um programa científico de “testes nucleares com fins pacíficos”.

Tratava-se de detonar cargas nucleares de baixa potência em “câmaras de explosão” depositadas em fossos recobertos por grossas camadas de concreto e escavados a diferentes profundidades do subsolo e em diferentes locais do território soviético.

“Eu não tinha mais do que 13 anos. Então, os mais velhos diziam que se encontrássemos urânio em Osinsk ficaríamos ricos”, lembrou outra testemunha do teste de Borojal. “A explosão rompeu os vidros das janelas, sentimos um tremor de terra que passou despercebido em Irkutsk, a 160 quilômetros”, afirmou a testemunha.

Após a explosão, funcionários dos ministérios de Energia Atômica e Defesa da URSS se “certificaram” de que a explosão não havia contaminado o subsolo nem as redondezas com radiação. Muitos anos depois, em 1999, especialistas do Instituto de Geoquímica da Academia de Ciências deram o alarme. Eles detectaram nas águas subterrâneas de Borojal isótopos de estrôncio-90. Outras entidades de segurança nuclear e organizações ecologistas confirmaram inequivocamente a contaminação radiativa em Borojal.

Os especialistas supõem que, por alguma razão, a câmara de explosão se deteriorou e, desde então, o material radiativo contamina o subsolo.

Yona Ivanova, pediatra-chefe do hospital regional de Osinsk, confirmou que entre a população infantil aumentaram os tumores malignos e da tireóide, as deficiências cardíacas congênitas e a cegueira.

Diante das eleições parlamentares de dezembro deste ano na Rússia, Alexei Jorinoyev, presidente do Parlamento regional, armou uma campanha para incluir Borojal e outras aldeias vizinhas num programa federal de ajuda. Somente assim as autoridades locais poderão receber recursos adicionais para a assistência médica dos habitantes e meios técnicos para limpar os terrenos afetados.

Apesar da forte propaganda feita pelo Kremlin para anunciar cada novo teste atômico, as chamadas “explosões nucleares com fins pacíficos” transcorreram no mais absoluto sigilo. Um único relatório do Ministério de Energia Atômica da Rússia publicado em 2001 revelou que durante 23 anos (de 1965 até 1988) foram realizadas na ex-URSS 124 explosões nucleares “com fins pacíficos”.

A maioria destas provas, a uma profundidades entre 500 metros e 2,8 quilômetros, foi feita pelo ministério de Geologia, e pelo de Gás e Petróleo nas regiões de Arjangels (noroeste), Krasnoyarsk, Irkutsk, Tiumen e Yakutia (Sibéria) e Astracan, na foz do rio Volga, no mar Cáspio.

Oficialmente, os testes visavam a medir a estabilidade sísmica das camadas subterrâneas, a otimizar a extração de gás e petróleo nos poços, e a descobrir e fragmentar as faixas de jazidas de minerais. Algumas versões extra-oficiais ressaltaram, porém, que os testes atômicos subterrâneos perseguiam obje