Temer, ainda abalado, nega queda mas Congresso articula a remoção

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado quinta-feira, 18 de maio de 2017 as 13:52, por: cdb

Principais aliados já reconhecem que não há mais ambiente político para a continuidade do governo Temer

 

Por Redação – de Brasília

 

Partidos da base aliada já começaram a articular, na manhã desta quinta-feira, a forma mais rápida de afastar o presidente de facto, Michel Temer, do Palácio do Planalto. Passageiro no ônibus que partiu após o golpe de Estado, há um ano, incendiado com as delações premiadas dos donos do grupo empresarial JBS, Temer ameaça permanecer no assento até o fim.

O ator Bruno Ganz viveu o papel de Hitler, em suas últimas horas no poder, nas quais também negava a própria queda, assim como Temer, no Palácio do Planalto
O ator Bruno Ganz viveu o papel de Hitler, em suas últimas horas no poder, nas quais também negava a própria queda. Assim como Temer, no Palácio do Planalto

A um grupo de parlamentares, em audiência nesta quinta-feira, no Palácio do Planalto, o peemedebista avisa que não pretende deixar o cargo. Nem mesmo após a divulgação do áudio, gravado por seu interlocutor, o empresário Joesley Batista, um dos donos da grupo J&F, na qual teria avalizado operação para comprar o silêncio do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha. Um dos senadores presentes ao encontro, ouvido pela reportagem do Correio do Brasil, relata que Temer foi incisivo:

— Não vou cair — disse Temer.

Conduzido ao poder após a deposição da presidenta Dilma Rousseff (PT), Temer repetiu a frase várias vezes, ao longo da conversa com os parlamentares. O senador Sérgio Petecão (PSD), coordenador da bancada do Acre no Congresso, relatou que Temer estaria abalado emocionalmente. A expressão, confirmou o senador, foi repetida várias vezes durante a conversa com os parlamentares.

A queda

Segundo Petecão, foi o próprio presidente que recepcionou o grupo de parlamentares em seu gabinete pontualmente às 8h e que puxou a conversa sobre a gravação feita por Joesley Batista. Conforme o senador, Temer confirmou ter se encontrado com o empresário, mas disse que nunca imaginava que poderia ter tido uma conversa dele gravada.

O presidente, segundo o senador, disse que planeja fazer um pronunciamento em cadeia de rádio e TV assim que tiver acesso aos áudios da conversa, gravada em ação controlada pela Polícia Federal com autorização do Supremo Tribunal Federal (STF).

— Vou conversar com a nação — disse Temer, lembrando o ambiente vivido por Adolf Hitler, em suas horas finais no esconderijo, em Berlim, segundo o filme do diretor alemão Oliver Hirschbiegel.

Fim da linha

Apesar da negação de Temer quanto à própria queda, a notícia de sua remoção do poder é aguardada nos países da Europa e da América do Norte. Depois da revelação de um áudio em que dá seu aval à compra do silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha, jornais da Europa destacaram, nesta quinta-feira, mais um período de turbulências na política brasileira. Correspondentes usam o mesmo tom ao afirmar que, caso o teor das gravações seja comprovado, o presidente acabará deixando o poder.

Le Monde, França: “Presidente Temer é machado com novas revelações”

Neste novo episódio de uma saga iniciada em 2014 com a deflagração da Lava Jato, o Brasil corre o risco de mergulhar em um novo caos político e econômico. O país, que mal começou sua recuperação de uma recessão histórica, poderá voltar a sofrer a ira dos mercados financeiros, preocupados com o bloqueio das reformas prometidas por Michel Temer.

La Repubblica, Itália: “Tempestade política no Brasil”

Desta vez não se trata de uma das revelações habituais, que anunciam outros escândalos e novas prisões. Desta vez é diferente. O impacto político é reforçado pela presença de uma prova em áudio que registrou um claro ato corruptor. No nível institucional mais alto. O PT, juntamente com outros partidos de oposição, anunciou que entrou com um pedido oficial de impeachment contra o presidente do Brasil. Um bumerangue. Foi o mesmo Temer, à época vice-presidente, que liderou com Cunha a batalha pela destituição de Dilma Rousseff. O destino, zombando, agora prepara o caminho para sua renúncia. Voluntária ou forçada. Negar ou minimizar aquelas frases tomadas por uma caneta-gravador será difícil. Talvez impossível.

The Guardian, Reino Unido: “Gravações explosivas implicam Temer em suborno”

A política provavelmente vai ficar ainda mais paralisada – mesmo antes das últimas acusações, o governo Temer já estava em crise. Três de seus ministros foram forçados a se demitir. Outros oito estão envolvidos nas investigações de corrupção da Lava Jato. Os índices de aprovação do presidente caíram para apenas um dígito, a economia permanece atolada em recessão, e os opositores organizaram recentemente uma greve geral em protesto contra suas políticas de austeridade e propostas de mudanças nas leis de aposentadorias, trabalhistas e ambientais. A possibilidade de o Brasil derrubar outro presidente ficou mais próxima, embora a coalizão governista tenha uma grande maioria no Congresso.

El País, Espanha: “Gravação em que Temer obstrui a Justiça estremece o Brasil”

Se o que o Globo noticia for confirmado, isso arrastaria o governo de Michel Temer para a beira do abismo. Temer só chegou ao poder porque ele concordou com o trâmite do pedido de impeachment de Dilma Rousseff, da qual foi vice-presidente. Exatamente ele assumiu as funções da presidência um ano atrás, completado nestes dias. Desde então, não foi capaz de despertar no eleitorado praticamente nenhuma simpatia que lhe garantisse estabilidade no cargo. Sua aposta na austeridade, com a qual pretende tirar o país da pior recessão em décadas, ganhou como resposta duas greves gerais. Seu governo se viu implicado em uma série de escândalos de corrupção, que foram minando sua já fraca popularidade.

Handelszeitung, Alemanha: “Presidente brasileiro Temer extremamente comprometido”

A mídia fala em uma “bomba que explode sobre o país”. O presidente Michel Temer teria ajudado a silenciar com dinheiro um cúmplice em um escândalo de corrupção.

Temer teria dado luz verde para silenciar com pagamento de dinheiro o ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Em comunicado, o governo afirmou que Temer nunca propôs pagamentos para comprar o silêncio de Cunha. A reunião em si foi confirmada, tendo ocorrido no início de março.

‘Conspiração’

Depois da conversa com os parlamentares, na qual negou o término iminente de sua passagem pela Presidência da República, Temer cancelou toda a agenda no Palácio do Planalto.

Temer, muito abalado, diz ter sido vítima de uma “conspiração”.

— O presidente disse várias vezes que isso é uma conspiração. Ele estava muito firme e lamentou muito toda a situação. Disse que está firme e que não vai renunciar, não vai cair — declarou Petecão aos jornalistas, à saída do encontro. Temer tinha na agenda encontro com diversos parlamentares nesta quinta.

Provas suficientes

Para o deputado federal Paulo Teixeira (PT-SP), no Twitter, já existem indícios suficientes para a prisão de Temer. “Janot tem provas suficientes para pedir a prisão de Temer e Aécio. Do contrário, estará prevaricando”, diz o parlamentar.

No mesmo bordão, o PSB se apressa para ser o primeiro partido da base a desembarcar do governo. O deputado Júlio Delgado (PSB-MG) afirmou que será convocada uma reunião emergencial da executiva do partido. O encontro será nesta sexta-feira, pela manhã, para discutir o rompimento. Segundo Delgado, o presidente do PSB, Carlos Siqueira, vai orientar que quem quiser defender o presidente Michel Temer terá de sair do partido. Para o deputado, a legenda já está, a partir deste momento, na oposição.

— O PSB está na oposição e vai defender a renúncia. A gente vai dizer que quem quiser defender o governo tem que sair do partido. Essa é a posição do presidente do partido e de vários deputados. O governo acabou — disse Delgado.

Informações privilegiadas

Entre os dados vazados para a mídia conservadora está, ainda, o fato de que Temer teria antecipado ao empresário Joesley Batista que o Comitê de Política Monetária (Copom) cortaria a taxa de juros em 1 ponto porcentual. Com essa informação privilegiada, Batista teria orientado seus investimentos a render mais do que os concorrentes de mercado.

O episódio é parte do acordo de delação premiada dos donos da JBS com a Procuradoria Geral da República. A conversa foi gravada pelo empresário e ocorreu no dia 7 de março, à noite, no Palácio do Jaburu. Nesse mesmo encontro, o presidente autorizou a JBS a garantir o silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha, na prisão.

No dia 12 de abril, o Copom reduziu a taxa Selic, referência para os juros da economia, em 1 ponto porcentual para 11,25%. Foi a primeira reunião do Copom após a conversa entre Temer e o empresário. Caso se confirme a história contada por Joesley com a divulgação do áudio da conversa, o presidente terá passado informação privilegiada ao empresário. O movimento teria permitido à JBS fazer operações vantajosas no mercado futuro de juros.

Os assessores de Michel Temer não retornaram as ligações do CdB até o fechamento desta matéria.