Temer abre os cofres para tentar manter o cargo, longe da cadeia

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado terça-feira, 26 de setembro de 2017 as 14:33, por: cdb

Negociação de dívidas dos parceiros de Temer, com dinheiro público, e distribuição de benesses estão no cardápio de ofertas.

 

Por Redação – de Brasília

 

Presidente de facto, alvo de duas denúncias da Procuradoria-Geral da República (PGR) no Supremo Tribunal Federal (STF), o peemedebista Michel Temer avança, mais uma vez, sobre o Erário na tentativa de permanecer no cargo. Desta vez, tenta barrar a segunda denúncia contra ele na Câmara.

Marum, um dos deputados aliados do hoje presidiário Eduardo Cunha (PMDB-RJ), esteve no encontro com Temer
Marum, um dos deputados aliados do hoje presidiário Eduardo Cunha (PMDB-RJ), defende Temer na Câmara

Acusado pela PGR, agora, por organização criminosa e obstrução de Justiça, o líder de uma facção do PMDB enfrenta novas dificuldades junto à base aliada. Desde as negociações na primeira denúncia, que ainda não as cumpriu, integralmente, falta-lhe credibilidade junto aos parlamentares fisiológicos. Doravante, segundo apurou a reportagem do Correio do Brasil, os votos necessários a impedir o avanço do julgamento, no STF, somente serão viáveis se houver “compensação imediata”, disse um dos parlamentares aliados ao governo. Por razões pessoais, prefere manter o anonimato.

Diante da exigência , Temer reforça programas como o refinanciamento de dívidas Refis e o Bolsa Família. Apesar dos avisos da equipe econômica, disposta a preservar a arrecadação prevista de R$ 13 bilhões no Refis, o governo combinou uma proposta mais flexível com os grandes devedores. A maioria deles colabora com as campanhas políticas dos deputados envolvidos na negociação.

Condições especiais

Para aqueles que pretendem quitar seus débitos à vista, Temer concede desconto de 90% nos juros, 70% nas multas e 25% nos encargos. Aos que preferem pagar em até 145 parcelas, o desconto será de 80% nos juros; 50% nas multas e 25% nos encargos. Para pagamento em até 175 parcelas, oferece descontos de 50% nos juros; 25% nas multas e 25% nos encargos. Aqueles que têm dívidas de até R$ 15 milhões podem dar entrada de 5% e não mais de 7,5%, conforme a proposta inicial. O prazo de adesão ao Refis se encerra nesta sexta-feira.

A medida agradou parte dos deputados aliados, mas ainda não é suficiente para garantir a votação. Para ajudar nas negociações, Temer deverá anunciar um reforço no programa complementar ao Bolsa Família, que inclui 3 milhões em microcrédito. A destinação das verbas ainda é um mistério.

Na segunda-feira, uma nova tentativa de leitura da denúncia contra Temer e os ministros Eliseu Padilha (Casa Civil) e Moreira Franco (Secretaria Geral) no plenário da Câmara foi frustrada, como já havia ocorrido na sexta-feira. Com o novo fracasso, o Planalto passou a admitir o risco de a tramitação da denúncia se alongar. O governo trabalhava para conseguir concluir o arquivamento até o dia 11 de outubro, mas começou a admitir a hipótese de a tramitação durar ao menos mais uma semana.

Emendas às pencas

No dia em que a PGR denunciou Michel Temer pela segunda vez, o governo liberou R$ 65 milhões em emendas parlamentares. A liberação ocorreu na quinta-feira, 14 de setembro, dia em que os deputados mais receberam dinheiro até agora durante o mês de setembro.

O segundo dia em que houve mais pagamento de emendas foi 19 de setembro, um dia antes de o STF concluir o julgamento que liberou o envio da denúncia para a Câmara. O levantamento é do partido Rede Sustentabilidade. O deputado que reuniu as informações, Alessandro Molon, disse que vai ao Ministério Público denunciar novamente a compra de votos para barrar a denúncia contra Temer.

Processado

Não bastasse a acusação de Molon quanto à compra de votos, o deputado federal Carlos Marun (PMDB-MS), relator da CPI mista da JBS e defensor de primeira hora de Michel Temer, responde a processo por improbidade administrativa. Ele exerceu a Presidência da Agência de Habitação Popular de Mato Grosso do Sul (Agehab).

A denúncia é do Ministério Público Estadual, aceita pela Justiça. Marun é acusado, com outros 13 réus, por causar lesão ao erário. Os valores chegam a R$ 16,6 milhões.

— Estou me defendendo, e tenho certeza de que o processo resultará na minha absolvição — disse o deputado, a jornalistas.

O processo tramita, desde junho de 2013. Segue na 1.ª Vara de Direitos Difusos, Coletivos e Individuais Homogêneos da Justiça de Mato Grosso do Sul. Está com o juiz Alexandre Antunes da Silva. Na atual fase, recebe as contestações dos réus – Carlos Eduardo Xavier Marun, Agehab, a empresa Dighito Brasil, e outros 11 denunciados.

Tropa de choque

A defesa de Marun foi entregue em 6 de março. Seus advogados, do escritório Paulo Tadeu Haendchen, refutam as acusações e pedem a total improcedência da ação. Os demais réus também, por seus respectivos advogados.

Marun se notabilizou, na Câmara dos Deputados, como integrante da tropa de choque do deputado Eduardo Cunha. Este está preso e condenado na Operação Lava Jato. Gaúcho de nascimento, fez carreira política no PMDB de Mato Grosso do Sul. Foi vereador (2005-2007) e deputado estadual (2007-2014). Licenciou-se para ser secretário de Habitação e Cidades e presidente da Agência de Habitação Popular. Assumiu o cargo a convite do governador peemedebista André Pucinelli (2007-2014).