Talebã libera armazém da ONU em Cabul

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Publicado quinta-feira, 18 de outubro de 2001 as 16:55, por: cdb

O Talebã, milícia que controla cerca de 90% do Afeganistão, liberou nesta quinta-feira um armazém do Programa de Alimentação da ONU, em Cabul, que continha toneladas de grãos. Os estoques eram mantidos para alimentar civis afegãos que têm tido mais dificuldade para conseguir alimentos desde o início da ofensiva militar americana ao país.

Integrantes armados da milícia haviam ocupado o armazém do Programa Mundial de Alimentação (WFP, sigla em inglês) na terça-feira à noite e forçado todos os funcionários a abandonar a instalação. No entanto, agências humanitárias continuam preocupadas com as entregas de alimentos no país. A porta-voz da Oxfam, Helen Palmer, disse à BBC que “o armazém (da WFP) de Cabul é apenas uma gota no oceano em comparação com o que é necessário”.

Tudo intacto

“Ainda estamos conferindo, mas parece que tudo está intacto”, afirmou um porta-voz do WFP à agência de notícias Associated Press. Não foi divulgado se o Talebã desocupou o outro armazém do WFP que havia invadido na terça-feira.

No total, os armazéns do WFP continham 7 mil toneladas de trigo, ou cerca de metade dos mantimentos da ONU no país. Agências humanitárias estimam que cerca de 6 milhões de pessoas não terão o que comer no severo inverno afegão se não receberem ajuda externa.

Os incidentes complicaram ainda mais a operação de agências humanitárias, já dificultado pelos bombardeios liderados pelos EUA. A diretora do WFP, Catherine Bertini, tem chamado atenção para o risco de haver uma “catástrofe humanitária” no Afeganistão se outros eventos impedirem a ONU e outras agências de desenvolver seus trabalhos no país.

Em uma entrevista coletiva, Bertini disse que são necessárias 52 mil toneladas de trigo por mês para alimentar afegãos que dependem da ajuda do WFP. A agência da ONU vem aumentando suas entregas de comida no país.

“Nos próximos dez dias nós esperamos entregar cerca de 16 mil toneladas se tudo correr bem”, disse Bertini.

A agência diz que continuará a usar aviões para lançar pacotes de alimentos se não conseguir ter acesso a todas áreas remotas por terra.

Mais dificuldades

Outras organizações humanitárias alertam para outras possíveis complicações em suas operações.

Segundo a Oxfam, motoristas de caminhão ficaram com medo de entrar no Afeganistão depois de forças americanas terem bombardeado acidentalmente um armazém da Cruz Vermelha em Cabul, nesta semana.

A correspondente da BBC Susannah Price diz que a organização Médico Sem Fronteiras (MSF) também teve vários de seus galpões saqueados.

O primeiro-ministro britânico, Tony Blair, descartou a possibilidade de interromper os ataques ao Afeganistão e disse que o Talebã continua sendo o maior obstáculo à prestação de ajuda oo país.

A Oxfam, no entanto, disse que os ataques podem não ser o único mas é um “forte” empecilho às operações das agências humanitárias no Afeganistão.

“Temos 120 funcionários no Afeganistão mas as mãos deles estão atadas. A ajuda do WFP está acabando – o armazém de Cabul é apenas uma gota no oceano em comparação com o que é necessário”, disse a porta-voz da Oxfam, Helen Palmer, à BBC.

Segundo Palmer, a situação atual no Afeganistão é perigosa demais para que haja uma distribuição sistemática de alimentos.