Suposto despejo de famílias do MST é marcado por contradições

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Publicado quinta-feira, 20 de fevereiro de 2003 as 23:04, por: cdb

Contradições marcam uma suposta ação de despejo contra 150 famílias do Movimento dos Sem-Terra em Irituia, no interior do Pará.

De acordo com o MST, 30 policiais militares entraram atirando na Fazenda Santa Bárbara II, feriram um membro do movimento e queimaram os barracos dos invasores.

As contradições começam com o próprio movimento. De acordo com Nonato de Souza, coordenador estadual do MST, os policiais chegaram sem ordem de despejo e feriram a balas um dos líderes do acampamento, identificado como Luciano. Já o advogado do movimento, Adelar Cupsinski, afirmou que Luciano Moreira foi preso e espancado, mas não chegou a ser baleado.

Na delegacia de Irituia, o escrivão José Carlos Pimentel confirmou que Luciano esteve no local ontem. Segundo Pimentel, Moreira chegou à delegacia às 8h e foi aberto um termo circunstanciado contra ele por invasão de área particular. “Esse história do espancamento não procede”, afirmou. O escrivão informou que o sem-terra foi liberado logo em seguida.

As maiores dúvidas são a corporação dos supostos PMs e de quem partiu a ordem da ação na fazenda. Segundo o subtenente Ronaldo, comandante da PM de Irituia, nenhum policial de sua corporação participou da ação. Ele afirma desconhecer a origem dos policiais que teriam invadido a fazenda.

O caso está sendo investigado pelo comando geral da Polícia Militar do Pará. De acordo com o major Mário Pinheiro, comandante do 11º Batalhão, que esteve na fazenda, a ação teria sido feita pelos próprios funcionários da propriedade. “Há indícios de que não teve participação de policiais, mas não podemos descartar”, afirmou.

Cupsinski acredita que os responsáveis pela ação são policiais porque estariam fardados. Para Pinheiro, entretanto, os funcionários da fazenda usam roupas parecidas com as vestimentas da polícia, o que pode ter gerado a confusão. O major informou que os funcionários derrubaram os barracos com motosserras e queimaram as madeiras.

Dois integrantes do MST, Moreira e uma mulher identificada como Socorro, prestaram depoimento na tarde desta quinta-feira na Corregedoria da Polícia Militar do Pará, onde a denúncia contra os supostos policiais deve ser apurada.

O acampamento

A Fazenda Santa Bárbara II pertence a Mauro Meireles, mas, segundo informações do MST, está arrendada para o fazendeiro Paulo Costa. Cerca de 150 famílias acampam na propriedade há mais de um ano.

De acordo com o advogado do MST, não existe um processo de reintegração de posse e o movimento discutia com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) a desapropriação da área. O Incra não soube informar, entretanto, a situação do local.

O movimento informou que as famílias continuam próximas à fazenda, mas ainda não voltaram para a propriedade porque temem uma nova ação.