Suíça – como chegar à imigração zero

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Publicado sábado, 26 de maio de 2007 as 12:32, por: cdb

Manuel, um angolano de 21 anos, que ficou três meses na penitenciária suíça de Witzwil, é a gota d´água que faz transbordar o acúmulo de medidas consideradas arbitrárias pela associação IGA SOS racismo. De maneira discreta mas constante, a Suíça está renegando seu passado de terra de asilo e, como não pertence à União Européia, vai além das medidas defendidas há algum tempo pelo austríaco Jorg Haider sem provocar reações.

Alguns militantes de direitos humanos na Suíça, têm uma explicação – “os tempos mudaram, a Europa quer se livrar dos estrangeiros, se os métodos suíços aplicados pelo ministro Christoph Blocher não provocarem reações provavelmente serão levados aos outros países”. Publicados com destaque na Suíça, os elogios da extrema-direita francesa ainda não conseguiram levar a imprensa suíça a definir o líder do Partido do Povo com a mesma severidade da imprensa francesa a Le Pen.

Manuel, o jovem angolano, agora na clandestinidade, cristaliza hoje a política qualificada por muitos de “racista” e vem merecendo destaque em alguns jornais. Ele chegou à Suíça com 7 anos, quando Angola vivia a guerra civil. Veio com a mãe e, embora seu país fosse inseguro, não teve aceito o pedido de asilo. Recebeu um visto provisório F, entregue a requerentes vindos de países inseguros.

Durante sua infância, Manu frequentou a escola primária e secundária em Bienne, aprendeu o francês, fez amigos, teve pequenos empregos, enfim, se integrou. O jovem de hoje de nada se lembra da Angola de sua infância, mesmo porque seus pais tinham se separado e pouco recebeu de sua mãe, com a qual já não vive há algum tempo.

Ao chegar à maioridade, o serviço social local ajudou Manuel a escrever um pedido ao serviço de estrangeiros para lhe dar um visto correto ou a nacionalidade, para poder trabalhar e ter uma vida normal. Com o visto F, Manuel não pode ter emprego e nem onde morar, mas para ter um visto normal, é preciso ter emprego e um enderêço. Esse é um dos cinismos da nova lei para imigrantes que acaba por transformar todos os requerentes de asilo em delinquentes.

Outra lei aprovada no ano passado, torna praticamente impossível o pedido legal de asilo. As muitas exigências enquadram imediatamente o requerente como NEM, a sigla que define os casos Não Entrados em Matéria e considerados como infratores da lei suíça de asilo. O caso de Manuel, preso e aguardando expulsão é um entre milhares. Muitos já foram expulsos, nem sempre para seus países de origem, por acordos passados com certos países africanos, alguns relacionados com a restituição de dinheiro bloqueado em contas bancárias secretas.

Enquanto isso, discute-se na Suíça o passaporte provisório para os estrangeiros nacionalizados e, faz pouco tempo, uma comissão parlamentar votou pela concessão da nacionalidade suíça só em votações populares pelas comunidades locais. Os habitantes recebem os nomes, origem e fotos dos estrangeiros desejosos de se naturalizar suíços. Os portugueses geralmente são aceitos mas os negros, árabes e da ex-Iugoslávia são sistematicamente rejeitados, como mostraram as votações feitas na cidade suíça de Emmen.