Stédille acusa EUA de tentar ocupar a Amazônia

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Publicado segunda-feira, 12 de agosto de 2002 as 10:09, por: cdb

Correio do Brasil – O que o governo brasileiro pretendia quando criou a Base de Alcântara?

João Pedro Stédile – A base de lançamentos foi criada como parte do programa de desenvolvimento espacial brasileiro. Em sua origem, os objetivos estavam corretos. A idéia era termos uma área de pesquisa espacial, necessária ao desenvolvimento científico e tecnológico de qualquer nação independente. E a Base estava acoplada a outros setores de pesquisa, como o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e a Aeronáutica brasileira.

CDB – Qual a sua importância estratégica?

João Pedro Stédile – A partir do momento em que existe intercâmbio entre a Base, universidades, ITA e programas de controle de clima, é possível conhecer melhor o Brasil a partir do espaço.

CDB – De que forma a Base foi utilizada até o momento?

João Pedro Stédile – O governo investiu mais de US$ 500 milhões em sua construção e no desenvolvimento do programa espacial brasileiro. A maior conquista foi o desenvolvimento de uma tecnologia própria, independente do veículo de lançamento de foguetes, que permite realizar diversas pesquisas espaciais.

CDB – Quais seriam as conseqüências da concessão da Base aos EUA?

João Pedro Stédile – Primeiro, faz parte do acordo que o Brasil deixe de ter um programa espacial próprio. Ou seja, os Estados Unidos estão proibindo que continuemos pesquisando nessa área. Segundo, a Base poderá ser transformada em militar, já que será permitido o lançamento de artefatos militares. Além disso, o acordo proíbe convênios com nações amigas. Enfim, entregaríamos tudo a eles.

CDB – Qual a explicação do governo brasileiro sobre a assinatura do acordo que passa a Base para o controle americano? Qual foi a moeda de troca?

João Pedro Stédile – O governo FHC assinou um acordo que, segundo o deputado Waldir Pires, atenta contra a inteligência de nosso serviço diplomático. Assinar um documento como esse – que afronta a Constituição, a soberania e o desenvolvimento tecnológico por US$ 34 milhões anuais, que não poderiam ser usados em pesquisa espacial – é no mínimo subserviência. Para não dizer vende pátrias. O governo FHC deve ser julgado por algum tribunal por essa traição.

CDB – Por que a Comissão de Ciência e Tecnologia, da Câmara dos Deputados, apresentou parecer favorável ao acordo?

João Pedro Stédile – Primeiro o governo enviou o acordo para a Comissão de Relações Exteriores, onde foi vetado por maioria absoluta. Apenas um deputado, Bolsanaro, votou pela nulidade completa. Em seguida, o governo o reencaminhou para a Ciência e Tecnologia, onde tinha maioria. Dessa forma, fez uma manobra parlamentar para produzir dois pareceres e levar para plenário da Câmara.

CDB – Uma vez com a Base de Alcântara, de que forma os EUA poderiam avançar seu controle militar sobre a Região Amazônica?

João Pedro Stédile – Os Estados Unidos têm bases militares em outros países, justamente na Região Amazônica dessas nações. Eles colocaram bases na Bolívia, no Equador, no Panamá e na Colômbia. Faltava apenas no lado leste da Amazônia. Daí, o ponto estratégico da Base de Alcântara. E os Estados Unidos têm ainda acesso às informações do Sivam. Todos sabem que a empresa que forneceu o programa tem vínculos com o serviço de inteligência do exército americano.

CDB – O favorecimento de americanos(as) na licitação do projeto do Sivam significa que terão acesso a informações sobre o monitoramento por radar e sinais de satélites da Amazônia brasileira?

João Pedro Stédile – É uma vergonha. Os oficiais brasileiros não têm controle, até hoje, sobre todos os dados que o Sivam levanta. A empresa americana codificou muitas informações que somente ela tem acesso. Com relação ao tema, caberia uma auditoria do povo brasileiro e suas entidades para verificar a ingerência da CIA e do exército norte-americano.

CDB – Além da questão da biodiversidade, que outros fatores estariam em jogo tanto no caso do Sivam, quanto no caso da Base?

João Pe