Sonho de Chico Mendes ainda vive, apesar da violência na região amazônica

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Publicado segunda-feira, 23 de setembro de 2002 as 12:41, por: cdb

Há quase quatro anos, um dos mais próximos associados de Mendes, Jorge Viana, foi eleito governado do estado do Acre e embarcou em um ambicioso experimento que tem conquistado crescente apoio no país e exterior. Ao invés de destruir a selva, como sempre fizeram seus predecessores, ele prometeu “um governo pela floresta” e pelas pessoas que lá vivem.

Mas o movimento inspirado por Mendes enfrenta uma nova ameaça, com os opositores de Viana fazendo uso de manobras políticas e legais para tentar negar-lhe um segundo mandato. Até o momento, Viana tem conseguido se esquivar.

Viana, 42 anos, engenheiro florestal, lidera uma coalizão incomum, a Frente Popular do Acre. Seu objetivo, disse ele em uma entrevista, é fazer do estado “uma espécie de Finlândia da Amazônia”. A aliança inclui partidos de esquerda e organizações ambientalistas, tribos indígenas e intelectuais, seringueiros e grupos católicos.

“As árvores são nosso maior recurso natural, nossa vocação e patrimônio, e não um impedimento à modernização, e precisamos aprender como explorar a floresta sem destruí-la”, disse Viana. “Se tratarmos a floresta como um jardim, como um recurso renovável, cresceremos mais rapidamente do que se simplesmente a cortarmos”.

Durante os anos 80, Mendes, líder de um sindicato de seringueiros, defendeu uma abordagem semelhante, conquistando reconhecimento internacional como um símbolo da conservação da Amazônia. Mas sua campanha ofendeu fazendeiros, madeireiros e outros empresários que sempre controlaram o poder na região, e alguns destes decidiram que ele deveria morrer.

“Quando Chico ainda estava vivo, para falar sobre a defesa da floresta, os índios e seringueiros eram vistos como sendo contra o progresso e os interesses da Amazônia”, disse a Senadora Marina Silva. “Quatorze anos mais tarde, ninguém teria coragem de dizer algo como isso, e mesmo os mais duros críticos de Chico Mendes concordam que temos que favorecer o desenvolvimento sustentável”.

Marina Silva, 44 anos, talvez seja o melhor exemplo do processo iniciado por Mendes. Nascida em uma família de seringueiros, ela era analfabeta quando chegou à capital do estado aos 17 anos em busca de tratamento para malária e hepatite que adquirira crescendo na floresta.

Não muito após sua chegada, ela conheceu Mendes e eles começaram a estudar história na principal universidade deste estado de apenas 600 mil habitantes. Ela foi eleita ao Senado em 1994 e está hoje concorrendo à reeleição. “Estou na política devido a Chico Mendes”, disse ela.

Tanto Marina quanto Viana são favoritos para vencer as eleições agendadas para 6 de outubro. Recentes pesquisas mostraram Marina com uma confortável liderança, e Viana obteve a preferência de 60% dos entrevistados.

No final do mês passado, entretanto, o Tribunal Regional Eleitoral inesperadamente desqualificou sua candidatura, endossando os argumentos da oposição de que ele estaria ilegalmente usando o emblema do governo, uma árvore, para se promover.

Viana imediatamente apelou a esta decisão, que ele descreveu como uma tentativa de “vencer por decreto uma eleição que não pode ser vencida nas pesquisas”.

No início deste mês, o Tribunal Federal Eleitoral julgou improcedente esta decisão de forma unânime. Viana agora pressiona o governo federal para que envie observadores para as zonas eleitorais em meio à selva, onde ele teme a possibilidade de fraude.

O principal concorrente de Viana nas eleições é Flaviano Melo, que era governador do estado quando Mendes foi morto. Grupos de direitos humanos criticaram Melo por falhar em considerar seriamente as primeiras ameaças contra Mendes e por prejudicar as investigações subseqüentes. Melo alega que fez todo o possível para evitar o assassinato e acusou Viana e seus aliados de distorcerem seu papel para conquistarem votos.

“Dei a Chico Mendes toda a segurança que ele havia me pedido, até mesmo deixando ele escolher policiais estaduais como guarda-costas, mas quando as p