Soldados israelenses marcam números na pele de palestinos

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Publicado segunda-feira, 28 de abril de 2003 as 13:47, por: cdb

Soldados israelenses marcaram números nas mãos de centenas de palestinos que esperavam num movimentado posto de bloqueio do Exército, denunciaram nesta segunda-feira algumas das pessoas marcadas .

Muitos dos palestinos com números de três dígitos inscritos com caneta na palma de suas mãos contaram ter dito aos soldados que consideravam a prática humilhante. Em contrapartida, os soldados respondiam que eles tinham a escolha de voltar sem passar pelo posto ou se submeterem à ordem.

O Exército do Estado judeu confirmou o incidente e alegou que isto foi feito por “apenas um soldado que agiu por conta própria” e será submetido a sanções disciplinares.

Por meio de um comunicado, o Exército de Israel informou ainda que, “num posto de checagem perto de Nablus, soldados distribuíram números entre as pessoas na fila como parte de inspeções de rotina. Quando as senhas acabaram, um soldado resolveu escrever números nas mãos de quem passava”.

Testemunhas palestinas denunciaram, no entanto, que a prática começou a ser usada no domingo e prosseguia nesta segunda-feira.

Um incidente similar ocorreu em março de 2001, quando soldados de Israel marcaram números na testa e nos braços de palestinos detidos à espera de interrogatório durante uma ofensiva contra um campo de refugiados na Cisjordânia.

Na época, a ação revoltou um parlamentar israelense que sobreviveu ao Holocausto e a prática foi suspensa. Durante a Segunda Guerra Mundial, o soldados nazistas tatuavam números no braço dos prisioneiros detidos em seus campos de concentração – a maioria dos quais era composta por judeus.

O incidente desta segunda-feira foi registrado no posto de checagem militar montado em Hawara, ao sul da cidade cisjordaniana de Nablus. O local é um dos mais movimentados da região.

Durante os mais de dois anos e meio do atual conflito, Israel impôs aos palestinos rígidas restrições ao direito de ir e vir como parte de uma campanha militar com o pretexto de evitar ações de extremistas palestinos dentro do Estado judeu. Os palestinos precisam de permissão especial para transitar entre uma comunidade e outra.

No horário mais movimentado da manhã desta segunda, em Hawara, centenas de palestinos aguardavam no posto de checagem a caminho do trabalho ou da escola em Nablus.

O professor de árabe Hamdi Jabali e o vendedor de seguros Wael Dwaikat estavam entre as pessoas na fila.

– Eu estava entrando na fila quando um soldado israelense me chamou e disse: ´me dê sua mão´ – relatou Jabali, de 46 anos. – Perguntei por que e ele respondeu: ´Quero anotar um número na sua mão´. Eu retruquei: ´Isto é desumano. Usamos isto somente com animais´. Então ele me disse que se eu não quisesse poderia ir embora”, sem passar pelo posto.

Jabali, marcado com o número 125, comentou que cem ou mais pessoas que estavam à sua frente na fila por volta das 8h rejeitaram o tratamento dos soldados israelenses e voltaram para casa.

“Pensei em voltar, mas não podia porque tenho muitas aulas e muitos compromissos hoje. Tenho muito a fazer e não é todo dia que eles nos deixam entrar em Nablus.”

Jabali vive em Beita, a cerca de 10 quilômetros de Nablus. Todos os dias ele tenta entrar na cidade para lecionar na Universidade An Najah. Porém, pelo menos em metade das tentativas os soldados o impedem de passar e ele precisa percorrer um longo caminho para entrar em Nablus pelas montanhas.

Dwaikat, marcado com o número 113, disse que os moradores que esperavam na fila tentaram sem sucesso convencer os soldados de que se organizariam sem confusão e a marcação era desnecessária.

“Mas os soldados diziam que estavam obedecendo às ordens de seus superiores e avisavam que, se não aceitássemos, não entraríamos na cidade.”