Sociólogo português, Boaventura cita marcha do MTST como exemplo de resistência

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Publicado segunda-feira, 13 de novembro de 2017 as 15:05, por: cdb

Segundo Boaventura, os conservadores negociaram “porque tiveram medo” dos milhares de sem-teto ali reunidos. Esse seria o modelo para a esquerda, de manter um pé na luta institucional e política, e o outro junto aos movimentos populares de base.

 
Por Redação, com BdF – de São Paulo

 

O sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, em visita à capital paulista, citou a marcha do MTST até o Palácio dos Bandeirantes,  na semana passada, como exemplo de resistência ao golpe de Estado; em curso no país desde Maio do ano passado. Ele ressalta que o movimento forçou o governo do Estado de São Paulo, do ultraconservador Geraldo Alckmin (PSDB) a negociar.

Boaventura de Sousa Santos citou o movimento dos sem-teto como exemplo de resistência
Boaventura de Sousa Santos citou o movimento dos sem-teto como exemplo de resistência

Segundo Boaventura, negociaram “porque tiveram medo” dos milhares de sem-teto ali reunidos. Esse seria o modelo para a esquerda, de manter um pé na luta institucional e política, e o outro junto aos movimentos populares de base. 

Capitalistas

Boaventura, em sua palestra em um encontro, no Teatro Oficina, observou que a ascensão da política neoliberal em todo o mundo, hoje, dá-se pela ausência de uma alternativa real à esquerda. é o que permite às elites instituirem, livremente, projetos de destruição de direitos, sem enfrentar a devida resistência.

— Eles se comportam com a arrogância de quem não sente medo — afirmou.

No debate, realizado neste domingo à noite, pela Frente Povo Sem Medo, o sociólogo português disse que só foi possível o crescimento econômico combinado com redução das desigualdades sociais entre o fim da Segunda Guerra Mundial e as crises do petróleo da década de 1970, no mundo ocidental, devido à existência da União Soviética, que era a representação real de outro modelo que imputava medo aos capitalistas.

— Temos no mundo hoje muita gente que tem muito medo e pouca esperança. E um pequeno grupo de poderosos – os oito homens mais ricos, que têm tanta riqueza quanto a metade mais pobre do mundo – vê um futuro grandioso — disse.

Força inovadora

Segundo afirmou, não foi apenas a União Soviética que ruiu com a queda do muro de Berlim, em 1989; mas, junto com a URSS, caíram também a social-democracia e o socialismo democrático.  Sobre o Brasil, Boaventura questiona como foi possível “tanto retrocesso político e social” sem que houvesse forte resistência.

Para ele, as reformas do governo Temer colocam em risco não apenas as conquistas sociais dos governos do PT, nos últimos 13 anos, mas também avanços que foram conquistados em mais de oito décadas.  Ele diz que um dos erros das esquerdas, principalmente na América Latina, foi desconsiderar que a luta anticapitalista deveria ser também anticolonial e antipatriarcal, pois as contradições que afetam as sociedades ocidentais não são apenas de classe, mas também se manifestam no racismo e no sexismo.

O sociólogo defendeu a participação das mulheres como força inovadora nas esquerdas, aos moldes do que ocorre em Portugal, com a chamada “geringonça”, que conseguiu superar as divergências entre socialistas, comunistas e o Bloco de Esquerda, com o protagonismo de lideranças políticas femininas e colocando o país como alternativa à agenda de austeridade, defendida pelas elites econômicas da União Europeia.

A tal geringonça

O debate sobre os rumos da esquerda no mundo também contou com a participação, por vídeo-conferência, da política portuguesa Maria Matias, do Bloco de Esquerda, que deu mostras de que é possível grupos de esquerda superarem divergências de fundo ideológico para governarem juntos frente a uma ameaça maior, dando sustentação parlamentar ao governo do primeiro-ministro socialista Antônio Costa. 

Ela diz que o que uniu a todos foi a elaboração de uma agenda centrada em questões essenciais, como a reversão da queda dos rendimento dos trabalhadores, o fim da política de austeridade defendida por Bruxelas e a manutenção do sistema público de seguridade social – as aposentadorias. “A soma dessas partes acabou sendo maior do que se tivesse havido uma coligação pré-eleitoral”, destacou Maria. 

Com dois anos da geringonça, a chamada “máquina imperfeita”, Portugal deixou para trás um ciclo de empobrecimento, com quatro aumentos sucessivos do salário mínimo, a reposição dos cortes em aposentadorias e pensões antes impostas pela Troika – Comissão Europeia, Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Central Europeu (BCE), dentre outras medidas, além da manutenção dos bancos públicos, frente a pressões privatistas.

— Houve, sobretudo, uma alteração profunda da política fiscal, no sentido de taxar mais o capital e aliviar os impostos sobre quem trabalha. Foi uma das mudanças mais profundas entre as medidas aprovadas — sinalizou a política portuguesa.

Podemos

Já o deputado espanhol pelo Podemos Rafael Mayoral destacou os nomes dos presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump; da Argentina, Maurício Macri, e do Peru, Pedro Pablo Kuczynski. Segundo afirmou, os milionários atualmente abriram mão da mediação com a classe política. Decidiram tomar as rédeas do sistema político. 

Ele acrescentou que, hoje, a democracia se depaupera, em todo o mundo. Na sequência dos ataques neoliberais pela destruição dos direitos sociais, vem também os ataques aos direitos civis e políticos. Ele contou que, na Espanha, rappers são chamados aos tribunais para explicar o conteúdo de suas letras; pessoas são processadas por mensagens postadas pelo Twitter; e fotojornalistas são multados por registrar imagens incômodas aos detentores do poder.

O modelo neoliberal de destruição de direitos só pode parar em pé “na ponta da baioneta”, afirmou Mayoral. A linha de ultradireita, na sua origem, é antagônica à democracia e a liberdade.

— É preciso marcar isso a fogo — para que nunca se esqueçam dessa incompatibilidade política, defendeu. 

Direitos Humanos

Frente a essas ameaças, Mayoral afirmou que as forças políticas de esquerda devem servir de ferramenta ao povo,. E esse, sim, é que deverá definir os rumos a serem seguidos. Ele advogou a subversão do modelo que encara os partidos políticos como a “vanguarda” das forças progressistas.

A posição defendida pelo Podemos, segundo ele, é que o partido assuma a retaguarda da luta, dando o apoio institucional aos movimentos populares. 

O deputado também afirmou que; diante das ameaças à democracia e à liberdade, é preciso fazer a defesa de um tesouro do século XX. Ele cita a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948). Trata-se de um documento capaz de congregar a luta por direitos como o acesso à saúde, educação e moradia.