A sociedade precisa assumir as rédeas de suas prefeituras, afirma cientista político

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Publicado terça-feira, 21 de junho de 2016 as 12:08, por: cdb

É preciso tirar o destino da cidade das mãos de uma pequena cúpula e repassar para a sociedade

Por Redação – do Rio de Janeiro:

Impeachment ou golpe? Ajuste fiscal ou desenvolvimento social? Essas são algumas das perguntas que estão orientando todo o debate sobre a política nacional nos últimos meses. Com a futura entrada do tema das olimpíadas na agenda da mídia resta a questão: que espaço sobrará para o debate sobre as eleições municipais deste ano?

Para aprofundar essa discussão sobre a política nas cidades o Correio do Brasil entrevistou o cientista político Theo Rodrigues (31 anos). Principal pré-candidato do PCdoB a vereador no Rio de Janeiro, Theo Rodrigues é um dos representantes da nova geração de militantes que reivindicam a construção de uma cultura política participativa na sociedade. Coordenador do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, Theo comentou temas como a democratização da mídia, a ocupação das escolas no Rio e aquilo que compreende como o “direito à cidade”.

escolas ocupadas
O sociólogo comentou temas como a democratização da mídia, a ocupação das escolas no Rio e aquilo que compreende como o “direito à cidade”

– Você é um dos muitos formuladores que tem contribuído para a construção do programa da pré-candidatura da Jandira Feghali para a prefeitura do Rio. Qual o centro desse programa?

– Olha, Jandira já foi candidata à prefeitura do Rio em 2004 e em 2008. Então podemos dizer que seu programa para a cidade do Rio está em construção há pelo menos 12 anos. Estamos apenas sistematizando todo esse acúmulo de experiências sobre o Rio unindo na sociedade, em uma grande esfera pública, intelectuais e ativistas sociais. Posso dizer que esse programa possui duas tônicas gerais: a questão do desenvolvimento econômico, pois sem ele não há geração de empregos, e o tema do direito à cidade. É preciso tirar o destino da cidade das mãos de uma pequena cúpula e repassar para a sociedade. Esse é o sentido geral que orienta todo o programa.

– E o que seria esse direito à cidade na prática?

– O direito à cidade é o direito do cidadão poder exercer sua cidadania na plenitude. Sem que os interesses da especulação imobiliária afetem onde ele deva morar. Sem que os interesses dos empresários de ônibus decidam o horário ou a rota do transporte público. Sem que os interesses das empresas de saúde limitem a quantidade de remédios que há no estoque de cada hospital. O direito à cidade é o direto da sociedade decidir os rumos da cidade, sem os constrangimentos impostos apenas pelos lucros dos grandes empresários.

– Urbanização e mobilidade são temas relevantes, certo?

Theo Rodrigues é pré-candidato a vereador do Rio de Janeiro
Theo Rodrigues é pré-candidato a vereador do Rio de Janeiro

– Claro. E estão ligados um ao outro. A política de urbanização da prefeitura do Rio de Janeiro hoje tem dois braços. Por um lado, induz o crescimento de empresas no centro da cidade, em especial na região portuária. Às vezes nem precisa da remoção, basta que o processo de gentrificação encareça o custo de vida no Centro e acabe expulsando aqueles moradores da região. Por outro lado, a prefeitura induz a construção de moradias do Minha Casa Minha Vida na Zona Oeste da cidade. Alguns dados de um importante economista aqui do Rio, o professor Mauro Osório, nos indicam que a AP-1 (Centro) concentra 38% do emprego formal e apenas 5% da população, enquanto a AP-5 (Campo Grande, Santa Cruz) tem apenas 7% de emprego formal e 27% de moradia. Essa política de urbanização é claramente representativa dos interesses da especulação imobiliária. A consequência dessa política pública de urbanização da prefeitura é óbvia: trens lotados de trabalhadores vindos da Zona Oeste para o Centro da cidade diariamente. É uma política de urbanização burra, pois além de ser péssimo para o trabalhador, sai caro para os cofres públicos. Uma política pública inteligente deveria induzir o crescimento de habitações de várias faixas de renda no Centro da cidade e levar para a Zona Oeste o capital produtivo, a geração de empregos.

– Você fala também em participação. Como é essa participação?

– Sim, a base do direito à cidade é a participação. Veja as dezenas de escolas que estão ocupadas hoje no Rio de Janeiro. O que esses jovens de 15, 16, 17 anos estão fazendo deveria ser exemplo para todos os movimentos sociais na sociedade. Ocuparam as salas de aula e de modo responsável organizaram a limpeza, uma grade de palestras e levaram suas propostas ao governador: fim do Saerj, aumento salarial dos professores, mais aulas de sociologia e filosofia etc. E qual a principal proposta? Eleição direta para o diretor da escola. Esse é apenas um exemplo. Mas quando falo em participação estou pensando também em conselhos sociais, conferências de políticas públicas, orçamento participativo, eleição para sub-prefeito etc. Ou seja, a sociedade precisa assumir as rédeas de suas prefeituras.

– Um dos temas prioritários de sua agenda é a democratização da mídia. Muita gente acha que esse é um tema nacional. O que pode ser feito pelas prefeituras?

Pois é, muita gente acha que esse é um tema do governo federal. Mas não é. Há muitas políticas que podem ser implementadas pelas prefeituras. A criação do Conselho Municipal de Comunicação, a implementação do Canal da Cidadania em parceria com o Ministério das Comunicações, a redistribuição das verbas de publicidade da prefeitura com criação de cotas para a mídia alternativa, a formulação de um Plano Municipal de Banda Larga que possa levar internet gratuita e de qualidade para as favelas da cidade, o apoio estrutural e jurídico para as rádios comunitárias. Enfim, tem muita coisa. A democratização dos meios de comunicação é fundamental. Não é saudável para nenhuma sociedade que haja um monopólio da informação. A cidadania exige que haja diversidade e pluralidade de fontes de informação. Só assim podemos fazer nossas escolhas com um mínimo de autonomia.

– Vamos falar um pouco sobre a disputa política. A eleição do Rio está bem fragmentada. Há três candidatos da esquerda: Jandira, Freixo e Molon. Algum deles chega no segundo turno?

– Olha, a esquerda está dividida com três candidatos, mas a direita está ainda mais dividida com cinco candidatos: Pedro Paulo, Crivella, Osório, Bolsonaro e Romário. Será a eleição mais fragmentada da história do Rio. Essa fragmentação abre a possibilidade para que qualquer candidato que tenha 15% dos votos alcance o segundo turno. A minha torcida é para que um dos três candidatos da esquerda chegue no segundo turno. Mas torço mais ainda para que seja a Jandira. Pois acho que está na hora de eleger a primeira mulher prefeita do Rio. Há um zumzumzum no mundo inteiro sobre a participação feminina na política. Barcelona elegeu a Ada Colau e Madri a Manuela Carmena. Neste fim de semana Roma elegeu a Virginia Raggi e Turim a Chiara Appendino. Acho que agora é o Rio que irá eleger uma mulher.