Sérgio Moro e a certeza de que é Deus

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Publicado domingo, 26 de abril de 2015 as 18:22, por: cdb
O juiz federal Sérgio Moro
O juiz federal Sérgio Moro

Não há problema insolúvel quando um homem passa a suspeitar de que seja o próprio Deus. Muitas vezes um comprimido tarja preta ou uma dose de semancol, que vem em forma de topada no pé da cama, é suficiente. Mas o problema fica muito sério quando o sujeito deixa a escala da suspeita e passa a ter certeza absoluta da sua divindade. Aí a tendência é de que a vaca vá para o brejo. A vaca, o rebanho, o pasto, a fazenda inteira. É o que ocorre com o juiz Sérgio Moro, que conduz o processo da Lava  Jato.

O caso da prisão da cunhada do tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, é emblemático. Ao ver num vídeo um mulher muito parecida com ela na fila de um caixa eletrônico, o magistrado, do alto do seu achismo, corroborado por uma promotoria também “achista”, decretou sua prisão. E disse que o vídeo provava que ela fazia depósitos para a irmã de maneira pulverizada. Só Deus viria tanto em tão pouco.

Marice Correia de Lima estava no exterior, onde participava de um Congresso, quando foi informada de que Moro queria prendê-la. Retornou para se apresentar, se defender e esclarecer a dúvida do juiz. Que dúvida se no seio de Deus só há certeza? Foi presa, claro. O MP pediu ainda ampliação da prisão porque criminosa periculosa assim…. só atrás das grades! Até que a verdadeira dona da imagem que aparece no vídeo, Giselda Rousie de Lima, irmã de Marice, Mulher de Vaccari, é finalmente reconhecida. Ela que já havia dito ser a pessoa que aparecia no vídeo: “esta pessoa sou EU!” – mas foi ignorada. E ela disse mais: “eu estava movimentando a minha conta no caixa eletrônico”. Mas Deus deu de ombros.

Moro mandou soltar Marice. Apenas. Sem maiores explicações, pedidos de desculpas ou qualquer coisa. “Deus”, como se sabe, tem mais o que fazer.

O magistrado Moro foi a estrela de um prêmio inventado pelo jornal O Globo para bajular lideranças políticas de direita que se dispõe a cumprir bem seu papel – atacar o PT. E, perto do Olimpo, entendeu que era ele, ou deveria ser em definitivo, o protagonista deste grande teatro em que se transforma a Lava-Jato.

Na lista dos beneficiários da grana das empresas que trabalhavam para a Petrobras existem muitos partidos. Uma lista divulgada ontem em Conexão (leia aqui) mostra mais de duas dezenas. Nela, além do PT, o PSDB (segundo beneficiário), PMDB, DEM, PR e etc. Mas ao ler a lista percebe-se o quão parcial é a Justiça Divina imposta pelo lugar tenente de Nosso Senhor aqui na Terra. Moro ignora outras legendas na sua investigação. Seu alvo, sua meta, sua obsessão é o PT. E para isso ele não mede esforços, não reconsidera decisões, não pede desculpas e nem redobra cuidados.

Moro está seguindo em marcha firme em direção ao abismo. Mas ouve a ovação da plateia como se fosse um herói a se aproximar da linha de chegada – cada um ouve o que quer. Quando cumprir seu papel, ou pedir aposentadoria, conforme fez outro “Deus” há alguns meses, se achará pronto para alçar o mais alto posto reservado aos dotados do dom da imortalidade. É um caminho possível. Mas a vida e seus mistérios muitas vezes são impiedosos com a vaidade. Por vezes reserva um forte aprendizado para aqueles que, se achando poderosos, subjugam, tripudiam e atropelam no solo sagrado que é a vida de seu semelhante.

Fábio Lau é jornalista, diretor de Redação do Conexão Jornalismo.