Sem-terra deixam pacificamente fazenda onde derrubaram laranjal

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Publicado quarta-feira, 7 de outubro de 2009 as 11:16, por: cdb

Negociadores da Polícia Militar e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) chegaram a um acordo pacífico para a desocupação da Fazenda Santo Henrique, na divisa dos municípios de Iaras e Lençóis Paulista, em São Paulo. A PM cumpria um mandato de reintegração de posse, autorizada a “usar a força, se necessário”, segundo a senteça judicial.

Dois pelotões da Polícia Militar paulista, com cerca de 85 homens, cercaram o perímetro onde estão acampadas as 250 famílias de trabalhadores rurais sem-terra, no município de Iaras, no interior do Estado. Os PMs começaram a chegar às 5h30 desta quarta-feira. A Fazenda Santo Henrique, em Borebi, a 309 km de São Paulo, é alvo de um mandato para reintegração de posse expedido pela Justiça estadual na véspera, para a retirada dos ocupantes.

Em nota divulgada pela manhã, o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) esclarece o motivo da ação que resultou na derrubada dos cerca de mil pés de laranja da fazenda. A ação foi criticada até por interlocutores do movimento no governo federal. Na véspera, ao repercutir o assunto, o ministro do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel, e o presidente do Incra, Rolf Hackbart, condenaram a destruição dos laranjais. Cassel classificou a ação de “grotesca” e “injustificável”.

– Uma imagem grotesca, injustificável sob qualquer ponto de vista – disse Cassel.

Hackbart acrescentou que “o movimento tem errado muito e espero que uma situação grotesca como essa o faça refletir sobre as suas ações”.

– A minha reação foi de indignação. Não tem razão para isso. Ele (o MST) tem se isolado, tem perdido o apoio social – completou o ministro petista.

Leia, na íntegra a nota sobre o caso:
 
Cutrale usa terras griladas em São Paulo
 
“Cerca de 250 famílias do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) permanecem acampadas desde a semana passada (28/09), na fazenda Capim, que abrange os municípios de Iaras, Lençóis Paulista e Borebi, região central do Estado de São Paulo. A área possui mais de 2,7 mil hectares, utilizadas ilegalmente pela Sucocítrico Cutrale para a monocultura de laranja, que demonstra o aumento da concentração de terras no país, como apontou o censo agropecuário do IBGE.
 
“A área da fazenda Capim faz parte do chamado Núcleo Monções, um complexo de 30 mil hectares divididos em várias fazendas e de posse legal da União. É nessa região que está localizada a fazenda da Cutrale, e onde estão localizadas cerca de 10 mil hectares de terras públicas reconhecidas oficialmente como devolutas, além de 15 mil hectares de terras improdutivas.
 
“A ocupação tem como objetivo denunciar que a empresa está sediada em terras do governo federal, ou seja, são terras da União utilizadas de forma irregular pela produtora de sucos. Além disso, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) já teria se manifestado em relação ao conhecimento de que as terras são realmente da União, de acordo com  representantes dos Sem Terra em Iaras.
 
“Como forma de legitimar a grilagem, a Cutrale realizou irregularmente o plantio de laranja em terras da União. A produtividade da área não pode esconder que a Cutrale grilou terras públicas, que estão sendo utilizadas de forma ilegal, sendo que, neste caso, a laranja é o símbolo da irregularidade. A derrubada dos pés de laranja pretende questionar a grilagem de terras públicas, uma prática comum feita por grandes empresas monocultoras em terras brasileiras como a Aracruz (ES), Stora Enzo (RS) entre outras.

“Nossa ação não é contra as laranjas, mas contra a Cutrale. Infelizmente, as influencias da empresa na imprensa nacional, manipulou o protesto dos ocupantes, para esconder a verdadeira situaçao. A mesma imprensa esqueceu de comentar que usando os metodos mais escusos possiveis a CUTRALE  se transformou numa empresa que monopoliza todo comercio de laranjas do Estado de são paulo. E que superexplora os agricultores dela dependentes.
 
“O local já foi ocupado diversas vezes, no intuito de denunciar a ação ilegal de grilagem da Cutrale. Além da utilização indevida das terras, a empresa está sendo investigada pelo Ministério Público do Estado de São Paulo pela formação de cartel no ramo da produção de sucos, prejudicando assim os pequenos produtores. A Cutrale também já foi autuada inúmeras vezes por causar impactos ao ecossistema, poluindo o meio ambiente ao despejar esgoto sem tratamento em diversos rios. No entanto, nenhuma atitude foi tomada em relação a esta questão.
 
“Há um pedido de reintegração de posse, no entanto as famílias deverão permanecer na fazenda até que seja marcada uma reunião com o superintendente do Incra, assim exigindo que as terras griladas sejam destinadas para a Reforma Agrária. Com isso, cerca de 400 famílias acampadas seriam assentadas na região. Há hoje, em todo o Estado de São Paulo, 1,6 mil famílias acampadas lutando pela terra. No Brasil, são 90 mil famílias.
 
Direção Estadual do MST-SP