Sem problemas e com bom humor, show de João Gilberto em São Paulo foi sucesso

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Publicado sábado, 3 de agosto de 2002 as 14:15, por: cdb

Uma hora e 55 minutos de espetáculo. Vinte e oito músicas inteiras e dois trechos (só os primeiros versos de “Bahia com H” e de “Avarandado”). Muitos risos, muita conversa com a platéia, declarações de amor a São Paulo.

Isso poderia ser o resumo do que foi a apresentação de João Gilberto na sexta-feira no Tom Brasil, em São Paulo. Poderia, mas estaria incompleto, porque falta conseguir traduzir em palavras o que é assistir a um show do maior nome da música brasileira quando ele está de bom humor.

João Gilberto carrancudo, resmungão e ao mesmo tempo não dando bola para a platéia já garante um presente para os ouvidos. Porque é em sua forma de cantar, recriando as músicas que todos já conhecem, e de tocar, colocando a voz e violão em sintonia como nunca estiveram, que fazem dele um gênio. Mas quando ele está alegre e deixa a platéia participar, tudo fica ainda melhor.

Foi assim para os felizardos, conta Vaguinalo Marinheiro da Folha de São Paulo, que foi ao show de sexta. João entrou no palco às 22h43 como sempre faz: sozinho, de terno escuro e violão na mão. Sob as luzes, apenas uma cadeira e o apoio para os pés, microfones e as caixas de retorno. De início, alguns versos de “Bahia com H”: “sou o amigo que volta feliz a seus braços abertos”. E diz que era assim que voltava a São Paulo.

A partir daí, um desfile do que há de melhor no cancioneiro popular: muito Tom Jobim (“Lígia”, “Wave”, “Caminhos Cruzados”, “Retrato em Branco e Preto”, “Desafinado”, “Chega de Saudade”, “Corcovado”…), mas também Adoniran Barbosa, Caetano Veloso, Geraldo Pereira, entre outros. E ainda músicas em outros idiomas, como a italiana “Estate”, a francesa “Que Reste-t-il de nos Amours”, e “Eclipse”, em espanhol. Esta última, ele cantou duas vezes. Na segunda vez, após os primeiros acordos, percebeu que já a havia tocado. Mas não se importou: no ritmo, começou: “essa eu já cantei, mas não faz mal”, e emendou com a letra verdadeira.

Para todas as músicas, sempre apresentava um quê diferente. Um verso atrasado aqui, acelerado ali, só vocalizado mais adiante. Como que a mostrar aos ouvidos mais atentos que as músicas podem ser sempre as mesmas, mas que a interpretação busca sempre caminhos inexplorados.

No meio de tudo isso, mais declarações de amor a São Paulo: que a cidade é a locomotiva do país e que foi São Paulo que de fato impulsionou a Bossa Nova daqui para o mundo, quando a cidade “entendeu” o hino do movimento, “Chega de Saudade”.

Também houve muita conversa com a platéia. Disse que o som apresentava um problema, mas que estava conformado e que não reclama mais. Que sempre canta músicas velhas porque elas são bonitas e que muitos fazem e fizeram o mesmo. “Veja o Frank Sinatra, sempre cantando `Cheek to Cheek’. Tudo isso permeado de risadas”.

Ainda deixou que a platéia conduzisse o show, perguntando a todo instante que músicas as pessoas queriam ouvir. E funcionou como um maestro ensaiando o coro de “Saudosa Maloca” (um dos momentos mais emocionantes) e “Chega de Saudade”, que cantou pela segunda vez durante o bis, só porque as pessoas não haviam cantado junto na primeira vez.

Para aqueles que debutavam num show de João Gilberto, ficou a pergunta: “cadê aquele sujeito que segundo muitos só reclama e é antipático?”. Para os fãs (certamente a maioria no dia da estréia), a certeza de que João é sempre bom.