Segundo Fernando Henrique o mundo enlouqueceu

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Publicado sexta-feira, 2 de agosto de 2002 as 08:03, por: cdb

O presidente Fernando Henrique Cardoso elevou nesta quinta-feira o tom das críticas aos países ricos e à instabilidade da economia globalizada. No momento em que uma missão do governo brasileiro negocia, em Washington, os termos de novo acordo com o FMI, o presidente disse que “o Brasil, que apertou tanto as contas, não sabe mais o que apertar para se ajustar a um mundo que enlouqueceu”.
Ao falar na 4ª Conferência da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), no Itamaraty, sem citar nomes, mas num recado claro aos Estados Unidos, que enfrenta uma crise de desconfiança causada por fraudes nos balanços de grandes empresas, Fernando Henrique foi direto: “Não aceitamos essa ética de dupla face”, discursou. “Ficamos um pouco inquietos ao ver que há dois pesos e duas medidas, que a transparência que tanto nos pedem não parece ser assim tão transparente acima do Equador”.
Ele voltou a criticar a atual “arquitetura financeira internacional”. Fernando Henrique reafirmou que faltam mecanismos para proteger os países da falta de racionalidade dos mercados. “Hoje existe eventualmente, aqui e ali, um esparadrapo para cobrir uma ferida”, disse.
O presidente recusou-se a responder se pretende convidar líderes de oposição para discutir o teor da nova ajuda do FMI. “Não existe acordo ainda, quando existir, eu direi o que fazer”, disse, lembrando que o assunto tem “muitos desdobramentos”. Fernando Henrique também respondeu às declarações do secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Paul O´Neill, que recentemente cobrou providências para assegurar que o dinheiro que o Brasil recebe do FMI seja bem aproveitado e não “apenas saia do País direto para uma conta na Suíça”. “Expomos nossas mazelas ao mundo dia e noite. Temos também nossos valores. Não precisamos expor (isso) a ninguém. Estamos nos orientando por esses valores”, disse o presidente.
O presidente criticou a “imprevisibilidade total” da economia mundial. “A hecatombe, a imprevisibilidade, a mudança brusca, a falta de qualquer racionalidade, a incerteza do dia para a noite, isso pode levar países sólidos a enfrentarem problemas difíceis”, disse. “É preciso que se resolva isso não no plano desses países, mas no plano da chamada arquitetura financeira internacional”. Para Fernando Henrique, o problema é estrutural e vai muito além do risco que pode ser calculado pelos economistas.
Ele aproveitou para condenar também o comportamento de quem busca obter ganhos com as turbulências e os riscos inerentes às economias dos países. “Não gosto disso, mas há quem ganhe com o risco”. O presidente lamentou que o espírito de reconstrução do mundo reinante após a 2ª Guerra Mundial “foi sendo pouco a pouco sufocado”. “Não existe uma visão realmente nova para discutir de que maneira nós vamos dirigir o mundo”, afirmou.
Segundo ele, o crescente unilateralismo decorrente da hegemonia dos Estados Unidos no mundo não ajuda. “Não é essa a posição dos nossos países, que desejam um mundo mais associado, um mundo mais cooperativo, um mundo multilateral”. Fernando Henrique disse que é preciso dar “tratamento político” às insatisfações decorrentes das incertezas econômicas internacionais. O presidente defendeu uma “reengenharia da estrutura institucional mundial”. “Existe uma insatisfação que está se manifestando nas ruas e há a necessidade, digamos assim, de um tratamento político a essa insatisfação”, disse. “Acho que é responsabilidade de todos nós, nos vários organismos em que participamos, insistirmos na necessidade dessa reengenharia da estrutura institucional mundial”. Do contrário, argumentou o presidente, restarão apenas sentimentos de desilusão ou revolta.
Afinal, os países enfrentam uma “saia justa”, pressionados pelas demandas da população e a insuficiência de meios para atendê-las. “Do jeito que é hoje, só provoca uma sensação ou de desilusão ou de revolta, sentimentos que não ajudam a consolidação de uma ordem democrática em nível mundial”, disse.