Scolari crê em análise generosa da história

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Publicado terça-feira, 10 de setembro de 2002 as 23:08, por: cdb

CANOAS – Nos 423 dias que ficou no cargo, Luiz Felipe Scolari modificou a seleção brasileira e transformou o inseguro grupo das eliminatórias numa equipe que conquistou o pentacampeonato com sete vitórias em sete jogos.

Este retrospecto, acredita o treinador, fará com que a história seja mais generosa com a sua seleção do que com a comandada pelo seu amigo Carlos Alberto Parreira, que garantiu o tetracampeonato para o Brasil depois de 24 anos sem um título mundial.

“A história vai olhar para a seleção de 2002 de forma diferente que olha para a (seleção) de 1994, embora os objetivos tenham sido atingidos igualmente”, disse ele em entrevista exclusiva à Reuters na semana passada.

“A de 1994 fica para a história como a do tetra, aquela que ganhou uma ou duas partidas nos pênaltis e na prorrogação, que não fez partidas plasticamente bonitas, coisa e tal. Em 2002 foram sete jogos, sete vitórias, nenhuma delas nos pênaltis. Mas para mim, como técnico, as duas valem a mesma coisa. Uma foi tetra, a outra penta”.

Curiosamente, o técnico que era chamado de retranqueiro, adepto do anti-jogo e que chegou a dizer que o futebol-arte havia morrido, foi um dos principais responsáveis pela conquista. Afinal, o que mudou?

`”Não houve mudança alguma”, garante ele, pouco mais de dois meses após a final em Yokohama contra a Alemanha. “Jogamos de acordo com a competição. Nos três primeiros jogos (primeira fase, contra Turquia, Costa Rica e China), tínhamos a possibilidade de até perdermos um jogo e nos classificarmos, por isso optei por um time mais no ataque, mais ofensivo”.

Resgatar o prestígio do futebol brasileiro –e a mítica da camisa canarinho– era outro objetivo da primeira fase. `”Os jogadores sabiam que nos primeiros jogos íamos tentar ganhar com uma certa folga para tentar trazer o prestígio para nós de novo e fazer com que os adversários temessem novamente o Brasil'”, revelou Felipão.

“Depois (na segunda fase) nós voltamos à condição de uma equipe que joga mata-mata, contra adversários que a gente respeita, e fomos ao ataque um pouquinho menos, com mais cuidados defensivos”, comentou.

Segundo o técnico, tanto ele quanto os jogadores estavam confiantes que o time faria ao menos um gol por partida.

“Os jogadores sabiam que iam fazer no mínimo um gol. A gente sempre mostrava que, desde que começamos nas eliminatórias, em 95 por cento dos jogos fazíamos no mínimo um gol. A gente sempre falava: gente, aí atrás se não tomar (gol), tá ganho o jogo. Se tomar um, a gente faz e empata”.

Scolari relembra que em apenas uma partida, contra a Turquia, na semifinal, o time marcou apenas um gol. “O restante sempre foram dois pra mais”.

Scolari, vestido elegantemente com camisa e calça verde-musgo, relembrou o momento em que passou a acreditar no título: “Depois do jogo com a Inglaterra”.

Após a suada classificação brasileira para a Copa, com a vitória sobre a Venezuela na última rodada das eliminatórias sul-americanas, o técnico nunca disse em público que o Brasil seria campeão. Em todas as entrevistas, ele limitava-se a dizer que colocaria o time entre os quatro finalistas.

“A vida tem umas coisas diferentes das que você imagina”, disse, filosófico, em seu apartamento em Canoas.

“Quando chegamos entre os quatro, para mim já era histórico porque o que eu tinha prometido, havia conseguido. Mas vi que não havia mais França, não havia mais Argentina. Aí eu disse, não tem como fugir, dá para ser campeão”.

Um dos problemas em potencial da equipe na Copa –a briga de egos e disputa de espaço entre os dois maiores astros da seleção, Ronaldo e Rivaldo– nunca chegou a existir, garante o técnico.

Ele contou que, antes da final contra a Alemanha, a imprensa estava provocando Rivaldo ao dizer que ele estava chutando a bola ao gol de qualquer distância, e especulou-se que a disputa pela artilharia do campeonato, entre Rivaldo e Ronaldo, poderia prejudicar o entrosamento dos dois.

“Isso foi mot