Sarney fala de tolerância e de arrependimento em filme autobiográfico

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Publicado sexta-feira, 23 de abril de 2010 as 11:23, por: cdb

A trajetória do menino de Pinheiro (MA) que queria ser prefeito para impedir a violência policial e acabou se tornando presidente da República é contada no documentário José Sarney – Um nome na história, dirigido por Fernando Barbosa Lima e com roteiro de José Augusto Ribeiro. O documentário, exibido pela TV Senado neste sábado, às 20h, começa com dois marcos do fim do autoritarismo: a posse de Sarney em 15 de março de 1985, após a doença de Tancredo Neves, e a promulgação da Constituição em 5 de outubro de 1988.

O documentário também mostra que Sarney foi preso em 1945, com apenas 15 anos, por liderar um protesto contra a ditadura do então presidente Getúlio Vargas. Ao assumir o primeiro mandato como deputado federal em 1957, Sarney conviveu com um dos depoentes do documentário, Afonso Arinos de Melo Franco (1905-1990), que se tornaria, em 1985, presidente da Comissão Provisória de Estudos Constitucionais (denominada Comissão Afonso Arinos), criada com o objetivo de preparar um anteprojeto que deveria servir de texto básico para a elaboração da nova Constituição. Em 1957, Afonso Arinos estava se candidatando ao Senado pelo antigo Distrito Federal.

Ambos integravam a UDN, partido de oposição ao então presidente Juscelino Kubitschek, do PSD. Em depoimento para o documentário, Sarney reconhece hoje que fica “corado” quando relê o que escrevia sobre o então presidente, pelas injustiças cometidas na época. Sarney conta também a procura de um caminho alternativo à visão udenista clássica de moralismo político, buscando um conteúdo social e desenvolvimentista para o partido que protagonizava com o PSD os rumos da política nacional da época. Esse movimento, como lembra Sarney, foi batizado pelo jornalista Carlos Castelo Branco Branco como “Bossa Nova da UDN”.

Fuga

O ex-governador do Distrito Federal José Aparecido de Oliveira (1929-2007) contou episódios como sua fuga, juntamente com Ferro Costa – os únicos deputados udenistas cassados em 1964 -, em um carro dirigido pessoalmente por Sarney. Um ano depois, em 1965, Sarney se elegeria governador do Maranhão, com promessas de renovação que venceriam o líder do PSD, Vitorino Freire. Em 1968, às vésperas da edição do Ato Institucional 5 (AI-5), ainda como governador do Maranhão, Sarney recebeu em palácio o ex-presidente Juscelino Kubitschek, que seria cassado logo em seguida. Sarney disse que foi o único governador que discordou do AI-5.

O bipartidarismo acaba em 1977, e Sarney se torna, dois anos depois, presidente do PDS, partido que sucederia à Arena, braço político do movimento de 1964. Na mesma época, o oposicionista MDB se torna PMDB, por imposição da Emenda Constitucional nº 11, que obriga a inclusão da palavra “partido” no nome das agremiações.

Articulações

Em 1984, por se opor à candidatura de Paulo Maluf a presidente da República pelo PDS, Sarney renunciou ao comando do partido. No documentário, ele conta como foram as articulações com Tancredo Neves, então governador de Minas Gerais, para o lançamento da candidatura que acabou derrotando Paulo Maluf no Colégio Eleitoral, em 15 de janeiro de 1985.

Com depoimento do general Leônidas Pires Gonçalves, que se tornaria ministro do Exército, o documentário mostra detalhes da formação do suporte militar para viabilizar a posse do primeiro governo civil depois de 1964 e até de um plano para proteger Tancredo Neves, em caso de algum eventual atentado. Sarney diz no documentário que passou sem dormir a noite da véspera da posse, em 15 de março de 1985. Afirma que só teve noção exata de suas responsabilidades quando jurou a Constituição e olhou para o Congresso Nacional.

Confessando que não tinha a força de Tancredo Neves, observa que se viu obrigado a apressar o processo democrático. Tendo enfrentado 12,6 mil greves durante seu governo, Sarney afirma que a tolerância foi o principal traço de sua gestão.

Arrependimento

No documentário, Sarney conta os fatos que antecederam o Plano Cruzado, lançado em 28 de fevereiro de 1986, e confessa um grande arrependimento: ter assinado o Cruzado II em 21 de novembro de 1986, após o fracasso do Cruzado. Mesmo com o insucesso dos planos econômicos, Sarney destaca como heranças positivas de seu governo o aprofundamento da abertura democrática, os programas sociais e conquistas da sociedade como a impenhorabilidade do imóvel de família.

– O saldo foi positivo para o Brasil. Não deixei que a democracia morresse nas minhas mãos – afirma o ex-presidente da República que, com sucessivos mandatos, está prestes a encerrar sua carreira como o político brasileiro com mais tempo no Parlamento.