Russos choram seus mortos e criticam Putin

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Publicado segunda-feira, 6 de setembro de 2004 as 10:28, por: cdb

A Rússia está de luto nesta segunda-feira pelas mortes de centenas de crianças e adultos no pior drama de reféns no país, enquanto crescem as críticas sobre a maneira como o presidente Vladimir Putin e suas forças de segurança lidaram com a crise.

Depois do sequestro de uma escola por rebeldes chechenos, em que pelo menos 335 reféns foram mortos, as tropas reforçaram a segurança devido a temores de que a fúria com a carnificina provoque tensões étnicas e religiosas na região do Cáucaso no sul da Rússia.

– Se estivermos falando sobre responsabilidade política, não pode haver outra opinião -o topo da liderança, incluindo o presidente, o FSB (serviço de segurança) e o ministério do Interior precisam ser culpados – disse Vladimir Ryzhkov, membro independente da Duma, a câmara baixa do Parlamento, em artigo no jornal Nezavisimaya.

– Estamos absolutamente sem defesas no ar, no metrô, na nossa própria capital e fora dela… Ele venceu o contrato (como presidente) para restaurar a ordem no país, para garantir segurança ao povo. Vemos hoje que o contrato foi violado –

O sequestro de mais de 1.000 pessoas na cidade de Beslan, na Ossétia do Norte, foi o mais recente caso de violentos ataques na Rússia, todos atribuídos a separatistas chechenos. Dois aviões de passageiros foram derrubados quase ao mesmo tempo e um homem-bomba matou 10 pessoas perto de uma estação central do metrô em Moscou.

As bandeiras estavam a meio mastro na Rússia e em Beslan – que não fica longe da Chechênia – as famílias se preparavam para os enterros de cerca de 80 pessoas ainda nesta segunda-feira.
Na manhã fria no principal cemitério de Beslan, centenas de pessoas trabalhavam preparando sepulturas. No centro do cemitério, enlameado depois da chuva da noite, as sepulturas das vítimas enterradas no domingo estavam cobertas de flores.

Parentes, vestidos de preto, levaram mais flores, e muitos se abraçavam. Alguns colocavam garrafas de água nos graves, em tributo a vítimas, que não puderam beber durante as 53 horas de crise. As autoridades usaram um terreno do tamanho de um campo de futebol, próximo do cemitério, para acomodar todos os corpos.

Putin declarou dois dias de luto nacional, até terça-feira, pelas mortes no caso, que terminou com uma dura batalha na sexta-feira entre os rebeldes e tropas russas. Canais de televisão cancelaram programas de diversão. Este é o segundo período de luto nacional em algumas semanas. Um deles foi mantido pelos 90 mortos na queda dos aviões. 

Os números oficiais mais recentes colocam o número de mortos entre reféns em 335, metade crianças. Entre os mortos, 207 ainda não foram identificados. Alguns relatos dizem que há mais de 200 desaparecidos, mas autoridades dizem que os número se referem aos não-identificados e não sugerem que haverá um aumento significativo no número de vítimas.

Autoridades locais se desculparam pela tragédia e uma chegou a oferecer a renúncia, mas o foco está sobre a maneira como Putin responderá. Ele não deu sinais de que a violência o fará mudar a política de linha-dura sobre os separatistas chechenos, que o levou ao poder em 2000.

Em discurso ao país um dia depois do fim do sequestro, o ex-chefe de espionagem falou sobre “terror internacional” contra a Rússia e disse que as forças de segurança do país precisam ser mais efetivas.

– Devemos reformar nossos serviços especiais? Mas há apenas dois meses Putin assinou um decreto sobre a nova estrutura do FSB…Agora ele diz que precisamos de um sistema de segurança mais efetivo – disse o Moscovsky Komsomolets, jornal diário mais popular da Rússia.
– A tragédia em Beslan mostra para o mundo inteiro a impotência dos nossos serviços especiais –