Rondônia investe no ecoturismo comunitário

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Publicado segunda-feira, 24 de setembro de 2001 as 14:37, por: cdb

Comunidades “perdidas” nas margens dos rios amazônicos, há muito tempo esquecidas pelo resto do Brasil, começam a apostar no ecoturismo de base comunitária como opção ou complemento ao extrativismo, de que sempre viveram. Seu público-alvo são os turistas do Sul-Sudeste e do exterior, interessados em conhecer de perto uma trilha de seringa ou de coleta de castanha, a rotina de uma família amazônica, um pedaço de floresta ou os meandros de rios, que, entre uma enchente e outra, às vezes se transformam em lagos.

No Vale do Guaporé, em Rondônia, após quatro anos de reuniões, treinamentos e estudos preparatórios, as primeiras pousadas e trilhas de ecoturismo comunitário estão prontas para receber seus hóspedes. A ajuda técnica veio do Fundo Mundial para a Natureza (WWF-Brasil) e da entidade ambientalista Ecoporé, com apoio e trabalho das associações de seringueiros local (Aguapé) e estadual (Organização dos Seringueiros de Rondônia-OSR). O investimento total foi de quase US$ 300 mil em infra-estrutura, no âmbito dos programas governamentais Proecotur, Projetos Demonstrativos Amazônia (PD/A) e Planafloro, mais US$ 80 mil de projetos de organização comunitária e capacitação do WWF. Parte destes recursos ainda estão sendo aplicados, sobretudo na ampliação de uma pista de pouso e outras melhorias.

Os roteiros duram de 6 a 10 dias e colocam os turistas em contato direto com os exageros amazônicos, que incluem tanto um luar quase vermelho sobre águas negras, entre as nadadeiras rápidas dos botos e saltos de tucunarés, como nuvens de mosquitos, de espécies variadas, sob sol e calor equatorial, esperando para a abordagem logo após um banho fresco de rio.

A partir de Costa Marques, os turistas seguem de barco até Curralinho, uma reserva extrativista de 1.757 hectares, onde foi construído um centro de visitantes, de madeira e palmeiras locais, coberto de palha. No caminho das “voadeiras” (barcos de alumínio com motor de popa), trechos de praia enegrecidos de repente abrem as asas e revelam ser bandos imensos de biguás, dispostos a competir em velocidade com os visitantes, em vôos rasantes bem coordenados.

Em Curralinho, visita-se uma casa típica dos chamados “povos da floresta”, e se percorre uma trilha da seringa, com direito a arriscar uma atividade do tipo “hands-on”, no corte de árvores para obtenção do látex. A seringa colhida é defumada e curtida diante do visitante, seguindo os métodos mais tradicionais. No mesmo local estão à venda pequenas peças de pura borracha – bolas, botinhas, brinquedos – e artesanato com sementes de seringa, coquinhos e fibras locais, feitos pelas mulheres.

Os ganhos são baixos e ainda não há um fluxo razoável de visitantes, mas a alternativa é mais promissora do que os 16 quilos de látex que um bom seringueiro consegue colher num dia, entalhando árvores desde as 4 da madrugada até uma ou duas da tarde, em geral comendo apenas um pouco de farinha e as frutas nativas disponíveis na trilha. O preço pago pelo látex, hoje, está em torno de 1 real o quilo. E a colheita da seringa, naquela região, vai apenas de julho a fevereiro, sendo que os três últimos meses são considerados ruins, porque chove muito e a chuva estraga o látex que está escorrendo das árvores.

Cerca de 240 quilômetros rio acima, fica outra parada ecoturística, na comunidade de Pedras Negras, sede de uma reserva extrativista de 124 mil hectares, onde vivem 85 pessoas. Lá foi construída uma pousada com capacidade para 15 hóspedes, com refeitório rodeado de telas e enfeitado, com capricho e paciência, por cortinas de sementes nativas: monjolo, feijão bravo, seringa, mulungu. Um mirante, de onde se tem a melhor visão dos botos nadando no rio Guaporé, e um observatório de aves, no meio da mata, completam a infra-estrutura, que em breve terá também uma pista de pouso.

O programa em Pedras Negras é conhecer o “pântano”, um lago cheio de aguapés e das famosas vitórias-régias, percorrer a trilha da castanha, praticar pesca esportiva