Roberto Carlos se apresenta em São Paulo e mostra a força do seu reinado

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado quinta-feira, 6 de novembro de 2003 as 05:22, por: cdb

Durante cerca de cem minutos, milhares de fãs observaram pacientemente uma lenda da música brasileira em um show sem nenhuma novidade, com falas ensaiadas e mal decoradas. No País que sempre gritou aos quatro ventos toda a originalidade – e genialidade da MPB -, quem reina não atende por Caetano, nem Gil, tampouco Chico.

O monarca tupiniquim é mesmo Roberto Carlos: o maior astro da Jovem Guarda, o cantor romântico (quase brega) e o intérprete religioso que não perde a oportunidade de pregar.

Antes de ser um primoroso construtor de sucessos, Roberto é um mestre na arte de cativar com seu carisma. Basicamente aí se explica a lotação do Credicard Hall, em plena quarta-feira chuvosa, e em um show que estava marcado para as 22h. Roberto subiu ao palco, cantou e venceu como sempre. Arrancou aplausos, gritos e lágrimas, como quando era astro da Jovem Guarda, apenas um pouco mais comedido.

O atraso causado pelo trânsito foi de quase trinta minutos, mas ninguém perdeu a paciência. E depois de uma breve abertura, que misturava melodias dos hits de Roberto Carlos e imagens de sua carreira, o rei foi anunciado. Demorou ainda mais alguns minutos até que surgisse do canto direito fazendo todos se levantarem. Os acordes iniciais indicavam que ‘Emoções’ dava as boas vindas ao público.

Sorrindo e distribuindo beijos, Roberto mostrou, no show desta quarta, 05, que a ferida causada pela morte de sua mulher, Maria Rita, ainda não foi curada. Quando cantou o verso ‘em paz com a vida…’ gesticulou com a mão, sinalizando que estava na verdade mais ou menos em paz. Em seguida soltou seu chavão: ‘Que prazer rever vocês’. Estava aberto o show.

Os sucessos do passado e presente se misturavam de forma caótica e desordenada. Mas nem isso comprometia a apresentação. ‘Detalhes’, cantada somente no violão e voz, precedeu o rock ‘Parei na Contra-Mão’, que por sua vez serviu de abertura para o rap (sim, é isso mesmo!) de ‘Seres Humanos’ e a balada ‘É Preciso Saber Viver’.

Durante algumas pausas, Roberto discursava, uma atuação já notória. Sua memória falhava, e em diversas oportunidades escorregava o olhar para o monitor que fica à frente de seu microfone.

Falou sobre gravações de discos, sobre sua carreira, mas basicamente falou de amor. Seu ‘amor sem fim’ por Maria Rita.
 
– Gravar Amor Sem Fim foi difícil. Eu sempre pensei nas mensagens que colocaria em meus discos. Mas nessa época eu chorei muito. Questionei muito! – desabafou.

Não muitos, mas algumas personalidades estiveram presentes à estréia do novo show de Roberto Carlos. O treinador do tenista Gustavo Kuerten, Larri Passos não escondia o sorriso bucólico após o show. O goleiro tetra-campeão Gilmar Rinaldi cantarolava uma melodia real na saída.

Mas um dos mais empolgados era o jornalista e apresentador da Rede Globo Chico Pinheiro.
 
– Gosto muito do Roberto quando ele canta o sentimento que vai à alma do povo – afirmou Pinheiro que ainda chamou o rei de ‘Frank Sinatra Brasileiro’.

Se as dicas gestuais e verbais de Roberto Carlos deram a entender que sua fé já não era a mesma, o rei acabou com as suspeitas. Chamou a harmonia animada da canção Jesus Cristo e colocou ponto final nas dúvidas e no show.
 
As rosas, é claro, foram distribuídas enquanto todos ainda cantavam o refrão. E todos saíam respeitosamente da corte do rei Roberto Carlos. O olhar do público compartilhava um pensamento coletivo: ‘Vida longa ao Rei!’.