Rio entra em contagem regressiva para o início dos Jogos Olímpicos

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Publicado terça-feira, 5 de julho de 2016 as 11:22, por: cdb

Enquanto instalações esportivas estão no cronograma, cidade vê seus problemas mais graves de infraestrutura expostos aos olhos internacionais: da segurança pública à poluição de cartões-postais

Por Redação, com DW – do Rio de Janeiro:

 

O Rio de Janeiro entrou nesta terça-feira em contagem regressiva de 30 dias para o início dos Jogos Olímpicos e vê diversos problemas internos colocarem em risco o potencial de sua imagem. Em vez de impulsionar as belezas e virtudes da cidade, as últimas notícias poderão fazer do megaevento um cartão-postal dos problemas cariocas.

O Rio de Janeiro entrou nesta terça-feira em contagem regressiva de 30 dias para o início dos Jogos Olímpicos
O Rio de Janeiro entrou nesta terça-feira em contagem regressiva de 30 dias para o início dos Jogos Olímpicos

Por um lado, a cidade está quase pronta para receber o evento, com instalações esportivas entregues e obras próximas da conclusão. Por outro, o decreto de calamidade pública, deixando clara a grave crise financeira do Estado; os problemas na segurança; os atletas que cancelaram a participação por causa do vírus zika; e promessas que não saíram do papel, como a despoluição da Baía de Guanabara, mancham a imagem da cidade perante turistas e atletas.

– O Rio de Janeiro enfrenta uma tempestade perfeita. Há crises em diversas áreas – afirma Lamartine DaCosta, pesquisador do Comitê Olímpico Internacional (COI) e professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). “Mas não existem Jogos sem problemas: eles foram registrados em todos estes eventos nesta fase de gigantismo a partir de Sidney (em 2000), quando passaram a ser monumentais.”

Calamidade pública

Em 17 de junho, a 49 dias para o início do evento, o Estado do Rio de Janeiro declarou calamidade pública devido à crise financeira, o governo estadual prevê um déficit de R$ 19 bilhões em 2016. Um dos motivos apresentados pelo governador em exercício, Francisco Dornelles, para optar pela medida é que a crise impediria o Estado de honrar os compromissos com os Jogos Olímpicos e Paralímpicos.

– Realmente houve uma nítida chantagem, que é comum em qualquer governo do mundo. Mas, por outro lado, do ponto de vista político, a decisão (de declarar calamidade pública) está correta, pois o prejuízo seria muito maior se a crise prejudicasse os Jogos – diz DaCosta. “O Rio não é um fato isolado. Nos Jogos de Londres, por exemplo, a Câmara dos Comuns tentou embargar muitas das modificações que foram feitas no final da construção das instalações olímpicas.”

Após análise, o governo federal liberou 2,9 bilhões de reais. Deles, cerca de R$ 800 milhões deverão ser usados para pagar a metade do salário de maio e o integral de junho dos policiais. O governo promete liberar ainda as parcelas atrasadas do Regime Adicional de Serviço (RAS), que paga os homens que trabalham durante as folgas, e ainda a premiação do Sistema de Metas do primeiro semestre de 2015, para os que reduzem a criminalidade.

A crise na segurança pública, como salários atrasados dos policiais civis, militares e bombeiros; e a falta de combustível para veículos e helicópteros das forças de segurança, chegou a gerar diversos protestos de policiais, como uma faixa estendida no setor de desembarque do aeroporto internacional do Galeão com os dizeres “Welcome to hell” (Bem-vindo ao inferno). O Estado do Rio vê, ainda, um aumento da criminalidade: houve uma alta de 15,4% no número de homicídios dolosos entre janeiro e abril em comparação ao mesmo período de 2015.

O Rio terá reforços das Forças Armadas para o período dos Jogos. Porém, segundo a mídia brasileira, serão disponibilizados 4,5 mil homens, número inferior ao solicitado pelo governo estadual, que era de 5 mil. Representantes do governo federal afirmaram que, com o aporte de 2,9 bilhões de reais, não será necessário deslocar o número pedido pela administração fluminense.

– Vai ter a Força Nacional de Segurança, o Exército, a Marinha. Todos estarão aqui. Acho que eles (governo estadual) fazem um trabalho terrível na segurança, antes e depois dos Jogos. Ainda bem que não serão os responsáveis pela segurança durante os Jogos – afirmou o prefeito Eduardo Paes, em entrevista recente à CNN.

Metrô em cima da linha

Com os recursos federais aplicados na segurança pública, o Estado promete fazer um remanejamento de verbas para concluir as obras da linha 4 do metrô, que liga a Zona Sul da cidade à Barra da Tijuca, bairro com o maior número de competições olímpicas. Com o aporte, a inauguração da linha, que tem 16 quilômetros de extensão e cinco estações, foi adiada para 1º de agosto, a cinco dias do início dos Jogos.

Mas a despoluição da Baía de Guanabara, um dos compromissos assumidos pelo Rio em sua candidatura para os Jogos, não vai sair do papel. A promessa de reduzir em 80% o esgoto e lixo jogados na baía até 2016, local palco das competições de vela, não foi cumprida. Estima-se que menos de 40% do esgoto seja tratado. E, devido ao vírus zika, alguns esportistas – como o golfista australiano Jason Day e o norte-irlandês Rory McIlroy, desistiram de participar da Rio 2016.

Para Kai Michael Kenkel, professor do instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio e pesquisador associado do Instituto Alemão de Estudos Globais e Regionais (Giga), em Hamburgo, quando o então presidente Lula defendeu a candidatura da Rio 2016, o evento tinha tudo para dar certo. Agora, porém, a situação é outra, segundo ele.

– Com uma grave recessão econômica e a crise política, o quadro é o oposto. Mas, se qualquer gestor público olhar para as edições anteriores do evento, ele vai ver que não ficou nada ou pouco de sustentável nas cidades que já foram sede – afirma Kenkel. “Se tivessem pesquisado, os líderes políticos teriam visto o peso financeiro que um evento como este traz para as finanças públicas.”

Efeitos da crise

A crise do Estado tem diversos motivos, como a queda do preço do barril de petróleo e, consequentemente, na arrecadação de royalties pelo Estado; a crise do setor petrolífero brasileiro devido ao escândalo da Petrobras; a diminuição na arrecadação de ICMS, também devido à crise econômica, os gastos com a organização dos Jogos e da Copa do Mundo, além de má gestão das contas públicas.

O Estado sofre ainda com a desvalorização do valor do barril de petróleo, que custava na faixa de 105 dólares em julho de 2013 e, atualmente, vale cerca de US$ 50, já que o valor dos royalties depende do preço do barril. Assim, o Estado arrecadará, em 2016, R$ 3,6 bilhões, em comparação, no ano anterior foram R$ 5,5 bilhões, segundo dados da Secretaria da Fazenda.

Quando o valor do barril de petróleo estava em alta, o Estado ampliou seus gastos. As despesas do Rio de Janeiro com o pagamento de servidores ativos, inativos e pensionistas do Poder Executivo explodiu nos últimos anos. Segundo dados da Secretaria de Estado de Planejamento e Gestão, em 2010 foram gastos R$ 17,2 bilhões. Já em 2016, o valor será de R$ 37 bilhões, quase o dobro.

Mesmo com tantas notícias ruins antes de atingir a marca de 30 dias para o início dos Jogos, Lamartine DaCosta, da Uerj, diz que, pela tendência histórica, os Jogos deverão ocorrer normalmente. E, ainda, segundo estudos científicos, a um mês dos Jogos a mídia nacional e internacional começa a mudar o tom em relação ao megaevento.

– E a população absorve muito bem isso (os problemas). É uma característica do povo aderir aos eventos, como nos Jogos Pan-Americanos e a Jornada Mundial da Juventude. E, pela tendência histórica, isso deverá se repetir também na Rio 2016 – prevê DaCosta.