Retornar ‘nos braços do povo e dos militares’ teria sido o objetivo de Jânio 

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Publicado quinta-feira, 25 de agosto de 2011 as 15:11, por: cdb

Quando se candidatou à presidência da República, Jânio Quadros (1917-1992) não tinha ideia da real situação econômica do país, segundo ele mesmo relataria anos depois. Às voltas com a pressão por medidas urgentes e fortes, passou a ansiar por uma ampliação de poder, segundo se depreende de depoimento dado ao neto, no dia 25 de agosto 1991, 30 anos depois de deixar o cargo de presidente.

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Jânio já estava então muito doente. Morreria em fevereiro do ano seguinte.

O depoimento faz parte do livro Jânio Quadros: Memorial à historia do Brasil’, organizado por Jânio Quadros Neto e Eduardo Lobo Botelho Gualazzi, segundo o postagem no Blog do jornalista Geneton Morais

A seguir trecho do livro:

“Quando assumi a Presidência, eu não sabia da verdadeira situação político-econômica do país. A minha renúncia era para ter sido uma articulação: nunca imaginei que ela seria de fato aceita e executada. Renunciei à minha candidatura à Presidência, em 1960. A renúncia não foi aceita. Voltei com mais fôlego e força. Meu ato de 25 de agosto de 1961 foi uma estratégia política que não deu certo, uma tentativa de governabilidade. Também foi o maior fracasso político da história republicana do país, o maior erro que cometi (…)Tudo foi muito bem planejado e organizado. Eu mandei João Goulart [vice-presidente] em missão oficial à China, no lugar mais longe possível. Assim, ele não estaria no Brasil para assumir ou fazer articulações políticas. Escrevi a carta da renúncia no dia 19 de agosto e entreguei ao ministro da Justiça, Oscar Pedroso Horta, no dia 22. Eu acreditava que não haveria ninguém para assumir a Presidência. Pensei que os militares,os governadores e, principalmente, o povo, nunca aceitariam a minha renúncia e exigiriam que eu ficasse no poder. Jango era, na época, semelhante a Lula: completamente inaceitável para a elite. Achei que era impossível que ele assumisse, porque todos iriam implorar para que eu ficasse (…) Renunciei no Dia do Soldado porque quis sensibilizar os militares e conseguir o apoio das Forças Armadas. Era para ter criado um certo clima político. Imaginei que, em primeiro lugar, o povo iria às ruas, seguido pelos militares. Os dois me chamariam de volta. Fiquei com a faixa presidencial até o dia 26. Achei que voltaria de Santos para Brasília na glória. Ao renunciar, pedi um voto de confiança à minha permanência no poder. Isso é feito frequentemente pelos primeiros-ministros na Inglaterra. Fui reprovado. O país pagou um preço muito alto. Deu tudo errado”.

Nelson Oliveira / Agência Senado