A religiosidade dos oprimidos

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Publicado sexta-feira, 30 de outubro de 2015 as 12:06, por: cdb

Por Maria Fernanda Arruda – do Rio de Janeiro:

Um favor que se pede aos leitores: não se esqueçam de que esse texto não trata de temas religiosos, não defende e não ataca credos e ou crentes. Trata de buscar explicações para a patologia que estamos vivendo no Brasil e que, numa simplificação perigosa, rotulamos com o nome de igrejas evangélicas. Generalização indevida, pois que abarca religiões e fenômenos sociais muito diversos. Melhor fazer referência às seitas pentecostais, desde logo sendo preciso lembrar que precisam ser destacadas as que fazem ‘neopentecostais’.

Nos anos de 1970, as “comunidades de base” atraíram uma parcela considerável de um operariado que estava nascendo e que optava por elas, em detrimento do sindicato. Um levantamento de 1975 mostrou que 78% dos operários se declaravam católicos; e, mais impressionante do que isso, 30% frequentando assiduamente a sua igreja. A igreja católica que apoiou Lula, aproximando os estudantes dos operários, foi essa, a das Comunidades Eclesiais de Base, que Roma e os Quartéis trataram de sepultar. Mas uma Igreja que não chegou às favelas, à periferia, além dos bairros operários.

Maria Fernanda Arruda
Maria Fernanda Arruda

A terceira onda, a neopentecostal, teve início na segunda metade dos anos 70. Fundadas por brasileiros, a Igreja Universal do Reino de Deus (Rio de Janeiro, 1977), a Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra (Brasília, 1992) e a Renascer em Cristo (São Paulo, 1986) são as maiores. Utilizam intensamente a mídia eletrônica e aplicam técnicas de administração empresarial, com uso de marketing, planejamento estatístico, análise de resultados etc. Algumas delas pregam a Teologia da Prosperidade, pela qual o cristão está destinado à prosperidade terrena, rejeitando os tradicionais usos e costumes pentecostais. O neopentecostalismo constitui a vertente pentecostal mais influente e a que mais cresce. Também são mais liberais em questões de costumes, sem prejuízo de sua pregação de moralismo rígido.

O que é esse admirável mundo novo? Fluidez do campo religioso, baixo grau de institucionalização das igrejas, proliferação de seitas, fragmentação de crenças e práticas devocionais, seu rearranjo constante ao sabor das inclinações pessoais ou das vicissitudes da vida íntima de cada um: esses seriam os sinais que revelariam a face da modernidade. Modernidade ambígua, no entanto, porque, de modo contraditório, ela mesma seria responsável por promover — surpreendentemente, se pensado que tudo isso surgiu como expansão do protestantismo, religião histórica da tolerância e do valor da razão como base da crença — o enrijecimento das posições institucionais, a disputa no interior do campo de crença em cada uma das confissões e a intolerância para com as igrejas ou formas rivais, elevando o irracionalismo aparentemente mais delirante à condição de prova da fé.

Da mesma forma, à privatização das crenças e práticas constatadas neste universo, corresponderia contraditoriamente, mostrando uma outra face dessa modernidade, um envolvimento cada vez maior e mais complexo por parte das igrejas com o mundo social, sua busca de controle dos instrumentos de riqueza e prestígio, e a disputa aberta por posições de poder na vida pública, graças à participação direta na política.

Através do Congresso, os pentecostais e neopentecostais chegam às classes médias, muito mais do que nos seus templos e programas televisivos, onde se prega apenas a singela destruição de imagens de santos. A partir do Congresso, ensina-se o catecismo do fascismo, a intolerância política, promovendo a transformação de Lula no Exú-demônio. As manifestações de ódio, nas ruas e praças públicas, em restaurantes e até numa livraria, enfim são expressões de religiosidade patológica, que se inspiram nas palavras dos bispos, dos pastores e dos deputados.

A Frente Parlamentar Evangélica é claramente um partido político neopentecostalista: 22 de seus membros são pertencentes à Assembleia de Deus, enquanto 12 vem da Igreja Universal; presbiterianos são apenas 9. Camuflam-se em algumas legendas: 14 no PRB,11 no PR, 8 no PSC, 7 no PSDB, 7 no PMDB; no PT apenas 3. Fatos relevantes: o PRB foi o partido de Jose Alencar, o vice-presidente do Lula; o PR é classificado pela Justiça Eleitoral entre os mais corruptos; o PSC nasceu para apoiar Collor de Mello, sendo hoje o grande bastião anticomunista no Brasil. Não seria necessário nem mesmo lembrar, mas é verdade: grande parte dos elementos dessa bancada está sendo processada, pela Justiça Eleitoral e no STF, por diferentes crimes: corrupção, peculato, e crimes eleitorais. Para obter o quinto ano de mandato, Jose Sarney comprou muitos desses “representantes do povo”, na forma de concessão de rádios e retransmissores de TV.

religiosidade
A terceira onda, a neopentecostal, teve início na segunda metade dos anos 70

Quais os objetivos imediatos dos pastores da noite? A manutenção da isenção de tributos, a conservação da legislação da radiodifusão, a obtenção de espaços para a construção de templos e a transformação dos seus atos evangélicos em eventos culturais merecedores de verbas públicas. O que eles serão capazes de construir? Um Brasil fascista. O grande objetivo: a formação de imensas fortunas pessoais. Cidadãos acima de quaisquer suspeitas, e não sendo filhos de Lula, não são objeto de interesse e pesquisa da Polícia Federal e muito menos do Ministério Público; menos ainda de um Ministro da Justiça sonolento e omisso.

Contraditória e lastimável é a postura do PT. Lula teve por oito anos um deles como seu vice-presidente. Empenhou-se na soltura de Edir Macedo, quando preso; e negocia, sempre que isso pareça ser conveniente o apoio político dos partidos neopentecostais. Dilma Rousseff aceita ministros dessa origem; comparece à inauguração do Templo de Salomão, prestigiando um dos maiores salafrários do País. Não os ameaça com reformas que atentem contra os seus interesses.

Enfim, o PT tem convivido com o inimigo, não só dele, mas do povo brasileiro. Acatando o apoio de gente fanaticamente anticomunista, defensores da moral e bons costumes da tradicional família, dos que reivindicam o assassinato de pobres, negros e gays, dos que querem os adolescentes atrás das grades. Está aceitando os que roubam o dinheiro pequeno e a inteligência apequenada dos pobres e miseráveis.

Maria Fernanda Arruda é escritora, midiativista e colunista do Correio do Brasil, sempre às sextas-feiras.