Rei do Nepal se arrisca a perder trono

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Publicado quarta-feira, 2 de fevereiro de 2005 as 15:11, por: cdb

O rei do Nepal, Gyanendra, tomou uma decisão de risco sem precedentes ao demitir o governo do primeiro-ministro Sher Bahadur Deuba pela segunda vez em pouco mais de dois anos e assumir total controle do poder do Estado.

Ele sabe que terá que ganhar uma luta que envolve a monarquia, o poderoso movimento rebelde maoísta e os partidos do Nepal.

Se ele perder, o próprio trono estará ameaçado. Ele disse que formará um novo gabinete diretamente sob sua liderança.

Mas os rebeldes maoístas parecem cada vez mais fortes. Ninguém sabe se o rei será capaz de lidar com a questão da guerra civil de forma bem-sucedida, algo que os políticos não conseguiram.

Tarefa impossível?

Muitos analistas vinham dizendo que o governo direto era provavelmente a última opção que restava ao rei para lidar com a crise.

A alternativa era o forte lobby no país em defesa da restauração do Parlamento, que tinha sido dissolvido.

Isso teria significado o retorno da democracia plena depois que o rei demitiu o governo eleito de Deuba, em outubro de 2002.

Deuba foi indicado de novo em junho do ano passado depois que os dois indicados pelo rei, Lokendra Bahadur Chand e Surya Bahadur Thapa – ambos a favor da monarquia -, não conseguiram avançar em uma solução para a crise maoísta.

Quando Deuda foi novamente indicado, o rei pediu a ele que formasse um governo que incluísse tantos partidos políticos quanto possível, que restaurasse a paz no país e começasse o processo para realização de eleições gerais em março deste ano.

Muitos previram que essa tarefa seria impossível.

Sem avanços

Ele começou mal, quando o maior partido político no Parlamento que fora dissolvido, o Congresso Nepalês, se recusou a cooperar. Alguns outros partidos menores também o esnobaram.

No entanto, uma combinação improvável – o Partido Nacional Democrático, de direita, o Partido Comunista do Nepal, de centro-esquerda, e outro partido pequeno – decidiu entrar no governo. Eles argumentaram que essa era a melhor maneira de limitar as manipulações políticas do rei.

Mas como se viu depois, Deuba não fez progressos para acabar com a luta.

Os maoístas simplesmente se recusaram a negociar com ele, e o denunciaram como um marionete do rei, insistindo em negociações diretas com o próprio rei.

Deuba respondeu expressando sua determinação em realizar eleições gerais.

A idéia de realizar eleições era ridicularizada por todos os partidos políticos por causa da deterioração da situação de segurança e da ameaça maoísta de atrapalhar esse processo.
Na teoria, o rei Gyanendra deveria ser favorável às eleições, pois ele vinha insistindo nelas quando reconduziu Deuba ao cargo de primeiro-ministro.

Mas Deuba vinha dizendo a muitos jornalistas, na condição de anonimato (off the records, em jargão jornalístico), que o rei, na verdade, não queria eleições.

É certamente verdade que, se uma data para eleições tivesse sido anunciada, teria ficado mais difícil para o rei justificar sua decisão de governar diretamente e impor estado de emergência.

Diferenças

Alguns no Nepal sempre tiveram suspeitas em relação às credenciais democráticas do rei.

Ele se tornou rei em circunstâncias dramáticas e inesperadas, depois que seu irmão e outros membros de sua família foram mortos em um tiroteio no palácio real, em junho de 2001.

Imediatamente depois de subir ao trono, ele disse que não seria um rei calado como seu irmão e que teria um papel mais ativo na vida nepalesa.

O envolvimento dele em assuntos de Estado iniciou a luta de poder no país.

Muitos vinham apelando por uma frente unida entre o rei e os partidos políticos do Nepal.

O rei Gyanendra nunca tomou essa iniciativa e, agora, parece ter decidido pôr os partidos à margem completamente.

O sucesso dele, agora, depende inteiramente de ele ser ou