Refugiados: o tamanho do problema e dos preconceitos

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Publicado sexta-feira, 15 de julho de 2016 as 10:07, por: cdb

Crise financeira provocou empobrecimento generalizado, com exceção da América Latina, embora a partir deste ano o “esforço” conjunto dos governos de Temer e Macri possam rebaixar os índices sociais nos dois países

Por Flávio Aguiar – de Berlim:

No dia 20 de junho foi o Dia dos Refugiados, assim declarado pela ONU desde o ano de 2000. Com a data, uma série de dados sobre o tema vieram à luz. Dão conta do tamanho do problema, dos preconceitos e da articulação com outros assuntos emergentes.

A votação da saída do Reino Unido da União Europeia, por exemplo, teve relação direta com ele. Uma maioria de trabalhadores de baixa renda que se sentem ameaçados pelo afluxo de imigrantes e refugiados, alçou a voz mais para a direita e mandou às favas a União Europeia.

No dia 20 de junho foi o Dia dos Refugiados, assim declarado pela ONU desde o ano de 2000
No dia 20 de junho foi o Dia dos Refugiados, assim declarado pela ONU desde o ano de 2000

Isso despertou análises como a de que (na revista Der Spiegel, ver abaixo), há uma crescente onda de angry voters (eleitores furiosos) que se sentem os deserdados da globalização, e caminham para os populismos de direita. Seriam esses os eleitores que, além de apoiarem o Brexit no Reino Unido, apoiam Le Pen na França e Donald Trump, nos Estados Unidos. Mutatis mutandis, podemos ver o dedos desses angry citizens no Brasil, apoiando o golpe em curso e Jair Bolsonaro, por se sentirem ameaçados, pela mobilidade social dos últimos anos, no que consideram seus privilégios.

No plano europeu e norte-americano, esses analistas apontam como principais fontes de angústia desses eleitores a crise financeira que se estabeleceu como permanente, a deterioração das relações no Oriente Médio e na África, que provocaram as novas ondas de refugiados, e a ascensão da China nos mercados mundiais, com a consequente evaporação de empregos e oportunidades.

A crise financeira provocou um empobrecimento generalizado, com exceção da América Latina, embora a partir deste ano o “esforço” conjunto dos governos de Temer e Macri possam rebaixar os índices sociais nos respectivos países. Nos Estados Unidos, a situação se tornou dramática. Desde 1999, houve uma perda de ganhos média nas famílias norte-americanas de US$ 5 mil por ano. Em 2014, a renda média caiu para US$ 53.600 anuais, alta em termos mundiais, mas decrescente, com os efeitos colaterais: perda de autoestima, crises familiares etc. A riqueza se concentrou enormemente: 400 norte-americanos possuem tanta riqueza quanto dois terços de toda a população do país, 216 milhões de pessoas, mais do que a de todo o Brasil.

Um dado interessante é que, historicamente, os norte-americanos sempre rejeitaram refugiados, com raras exceções. Em 1958, 55% deles eram contra receber refugiados da Hungria (com a repressão que se seguiu às tentativas de liberalização do regime), e só 33% eram favoráveis (12% de “sem opinião”). Em 1979, 62% eram contrários a receber imigrantes da Indochina (logo depois da Guerra do Vietnã), e 34% favoráveis. Em 1980, 71% não queriam receber cubanos, contra 25% a favor. Em 2015, 53% eram contra receber sírios, e 11% se dispunham a receber apenas “cristãos”. Uma exceção, até hoje não muito bem explicada: em 1999, 66% eram a favor de receber albaneses, enquanto apenas 30% eram contra.

Outros dados relevantes, obtidos a partir de pesquisas do Instituto Pew Research:

Hoje em dia há 12,5 milhões de sírios deslocados de suas habitações, contra 1 milhão em 2011, quando começava a Guerra Civil.

Na Europa, desde 2008 entraram quase 200 mil menores desacompanhados, a maioria vinda do Afeganistão, quase 100 mil somente em 2015. O número de somalis se multiplicou.

De julho de 2015 a maio de 2016, 1 milhão de imigrantes entrou na Europa, oficialmente. Porque em 2015, 1,8 milhão tentou entrar no continente ilegalmente, ante 280 mil em 2014 e 100 mil em 2013. As rotas preferenciais continuam sendo as que passam pela Turquia, Grécia, Espanha e Itália.

Com relação às reações diante dos refugiados, os números são também preocupantes: 59% de habitantes de dez países europeus pesquisados temem que o afluxo de refugiados aumente o risco de atos de terrorismo, apenas 36 % não.

O país campeão deste temor é a Hungria: 76%, seguido por Polônia, 71%, Alemanha e Holanda, 61% cada, Itália (60%), Suécia (57%), Grécia (55%), Reino Unido (52%), França (46%) e Espanha (40%).

A Hungria também é a campeã dos que acham que o impacto econômico dos refugiados será negativo: 82%. Depois, Polônia (75%), Grécia (72%), Itália (65%), França (53%), Reino Unidos (46%), Holanda (44%), Espanha (40%), Suécia (32%) e Alemanha (31%). Média: 50%.

Uma outra questão é se um ambiente de diversidade cultural, racial, nacional faz o país melhor ou pior para se viver. Neste quesito, as respostas variaram muito, com um percentual entre 27% (Grécia) e 48% (França) de “não faz diferença”. Assim mesmo, 63% dos gregos acham que fica pior, assim como 53% dos italianos e 41% dos húngaros.

Apenas no Reino Unido, na Suécia, na França e na Espanha o percentual dos que viam na diversidade um fator positivo superou os que a viam como algo negativo.

Em suma, assim como o ódio tornou-se um elemento político importante na América Latina, dirigido pelos socialmente “estabelecidos” contra os “emergentes”, na Europa, esse fator é o medo. Por vezes também descamba para o ódio, como no caso dos atentados contra albergues e abrigos dos refugiados.

 

Flavio Aguiar, é professor, autor, jornalista, tradutor brasileiro, organizador e colaborador de dezenas de livros.