Rebeldes lutam entre si antes mesmo de derrubar regime sírio de Al Assad

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Publicado sexta-feira, 11 de janeiro de 2013 as 13:22, por: cdb
Neva em certas regiões da Síria, onde segue a luta dos rebeldes contra o regime de Al Assad
Neva em certas regiões da Síria, onde segue a luta dos rebeldes contra o regime de Al Assad

A guerra civil na Síria está às portas de um impasse entre os próprios revoltosos, após a morte de um importante comandante rebelde. O vácuo de poder, na opinião de analistas, pode significar o começo de uma guerra entre grupo armados, complicando a luta para derrubar o presidente Bashar al-Assad. Fontes ouvidas no país pela agências inglesa de notícias Reuters revelam que Thaer al Waqqas, comandante regional das Brigadas Al Farouq, um dos maiores grupos rebeldes sírios, foi morto a tiros na manhã desta quarta-feira na localidade de Sermin, cidade do norte controlada pelos rebeldes, a poucos quilômetros da fronteira com a Turquia. A informação é atribuída a fontes rebeldes.

Al Waqqas, segundo essas fontes, era suspeito de envolvimento com a morte, há quatro meses, de Firas al Absi, principal líder da Frente Al Nusra, grupo jihadista ligado à Al Qaeda e qualificado em dezembro por Washington como organização terrorista. Além de crônicos problemas de abastecimento e da escassez de dinheiro e armas pesadas, os rebeldes sírios sofrem com a falta de unidade, após quase dois anos de mobilização para tentar derrubar o regime de Assad.

– Os assassinos chegaram em um carro branco, desembarcaram e crivaram Waqqas de balas quando ele estava em um depósito de distribuição de alimentos – disse um dos rebeldes.

As suspeitas imediatamente recaíram sobre a Frente Al Nusra.

– O irmão de Absi é um comandante (na cidade) de Homs. Ele prometeu vingança por Firas, e parece que ele cumpriu sua promessa. A Farouq está em um período de luto agora, mas parece questão de tempo até que os confrontos com a Nusra comecem em Bab al Hawa – acrescentou a fonte, referindo-se à passagem fronteiriça onde Absi morreu.

Um ambiente de tensão pairava entre grupos como o Nusra, composto principalmente por civis e apoiado por jihadistas estrangeiros, e grupos de oposição como o Farouq, que incorpora mais desertores do Exército e das forças de segurança oficiais, e que alguns consideram mais propenso a infiltrações por agentes de Assad. Um novo comando rebelde formado em dezembro na cidade turca de Antalya, com apoio do Ocidente, da Turquia e da países árabes, parece ter tido pouco sucesso em acabar com as divisões entre centenas de grupos rebeldes, especialmente nas regiões que já não estão mais sob controle de Assad, nas províncias nortistas de Idlib e Aleppo.

Os grupos Nusra, Farouq e Ahrar al Sham –três principais organizações rebeldes no norte– ficaram de fora do novo comando. O Departamento de Estado dos EUA diz que o Nusra está usando a luta síria para os “propósitos malignos” da Al Qaeda, e que não deve poder participar em uma eventual transição política síria. Um funcionário das Brigadas al Farouq disse que a morte de Absi é misteriosa, mas admitiu que ela complicou as relações com o Nusra. No entanto, ele não culpou o Nusra pelo assassinato de Waqqas.

– O regime está por trás do assassinato de Waqqas. Não temos nenhuma política de atacar o Al Nusra, e cooperamos militarmente com eles em algumas regiões – afirmou a fonte.

Aeroporto militar

Ainda nesta sexta-feira, militantes islâmicos contrários ao presidente Bashar Al Assad tomaram o controle total da base aérea de Taftanaz, noroeste do país. A tomada da estratégica posição representa um significativo golpe sobre as forças do governo, afirmam ativistas.

– No momento, os rebeldes estão no controle total da base aérea – disse o ativista Mohammad Kanaan, morador de Idlib. Rami Abdul-Rahman, diretor do Observatório Sírio pelos Direitos Humanos, sediado em Londres. Ele afirma que esse é o primeiro grande aeroporto militar a cair em mãos de opositores.

Os rebeldes tentavam tomar o controle de Taftanaz há meses. Embora o fato possa constranger o regime de Assad, não deve ter muito efeito sobre os ataques aéreos realizados por aviões do governo, já que a maioria parte de bases mais ao sul.

Diante da nova ofensiva militar rebelde, o enviado especial para a Síria da Organização das Nações Unidas (ONU) e da Liga Árabe, Lakhdar Brahimi, reúne-se nesta sexta-feira com importantes representantes dos Estados Unidos e da Rússia para discutir a crise em seu país. Brahimi, o vice-ministro de Relações Exteriores da Rússia, Mikhail Bogdanov, e o subsecretário de Estado norte-americano, William Burns, reuniram-se na sede da ONU em Genebra. Nenhum deles fez declarações ao chegar para o encontro, realizado a portas fechadas.

As discussões ocorrem um dia depois de a Síria ter acusado Brahimi de ser “flagrantemente tendencioso”, aumentando as dúvidas sobre se ele pode permanecer como mediador internacional. Damasco criticou o veterano diplomata argelino depois de ele ter descrito como “unilaterais” as propostas que Assad fez no domingo, apresentadas por ele como uma “solução política”.

Enquanto as autoridades conversam o número de refugiados sírios registrados em países vizinhos e no norte da África aumenta de forma exponencial. Foram mais de 100 mil no último mês e ultrapassou os 600 mil, informou o Alto Comissariado para Refugiados da ONU (Acnur) nesta sexta-feira. Segundo a organização, até quinta-feira 612.134 sírios haviam se registrado como refugiados em países vizinhos ou estavam no processo de registro, ante 509.550 em 11 de dezembro.