Realidades impossíveis

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Publicado quinta-feira, 2 de junho de 2011 as 11:35, por: cdb

Exposição em São Paulo é oportunidade de ver obras originais de um dos artistas gráficos mais influentes

 

02/06/2011

 

Aldo Gama

da Redação

 

É verdade que, para a maioria, Escher não é um nome familiar. No entanto, essas mesmas pessoas, muito provavelmente, já viram suas obras ou outras inspiradas em suas criações. Desenhos animados, videogames e filmes reproduziram imagens ou concepções do artista diversas vezes, como na abertura da novela Top Model e, mais recentemente, na película A Origem. Em comum, a ilusão de ótica, a representação de arquiteturas impossíveis, como figuras humanas subindo e descendo escadas em um mesmo plano.

Em exibição no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em São Paulo, até 17 de julho, a exposição “O mundo mágico de Escher” é uma oportunidade de conhecer – ou reconhecer – a obra do artista holandês Maurits Cornelis Escher (1898-1972), ali representada em 95 gravuras originais e desenhos, além de instalações interativas. E de avaliar se, como ele mesmo ressaltava, trata-se apenas do trabalho de um artista gráfico ou de “obras de arte” genuínas, questão debatida por críticos.

 

 

A popularidade da obra de Escher, paradoxalmente, impediu seu reconhecimento a ponto de, ainda hoje, não ser consenso entre críticos de arte e diretores de museus – que acham seu trabalho decorativo e fácil demais. Tanto que museus holandeses só começaram a dar espaço ao artista depois de seu sucesso no mercado estadunidense. 

A seguir uma entrevista com Pieter Tjabbes, curador da exposição.

Brasil de Fato – Seria correto ressaltar o caráter lúdico da exposição e, consequentemente, de boa parte da obra de Escher?

Pieter Tjabbes – Não podemos dizer que a obra de Escher é lúdica. Alguns trabalhos têm esse aspecto, mas ele quis mostrar algo mais sério: a forma que nós enxergamos o mundo, como nossos olhos podem ser enganados quando o artista cria uma ilusão no papel. Como funciona a realidade quando mostrada num espelho. Como conceitos matemáticos e geométricos podem ser utilizados para criar obras de grande beleza.

O documentário exibido na exposição apresenta um homem que negligenciava o convívio familiar em favor do trabalho. Os materiais e técnicas escolhidas por ele (xilogravuras e litogravuras) dependem de tempo e dedicação para serem dominadas. Essa escolha já seria um indicativo de sua personalidade?

Ele era absolutamente dedicado a sua obra, e escolheu uma forma de criar que requer uma atenção enorme, como também um tempo prolongado para executá-la. Em consequência disto, muitas vezes esquecia das obrigações familiares. Não era uma escolha objetiva, mas um resultado.

Ele se preparava muito antes de começar um trabalho. Tinha uma admiração pelos efeitos que só a gravura permite. Era metódico e acho que este trabalho constante e detalhado o atraiu. Assim não precisava de um momento concentrado de inspiração, – como acontece, às vezes, quando alguém pinta um quadro – mas uma inspiração planejada ao longo das semanas que ele criava a obra.

 

 

Escher afirma ter deixado a Itália por conta da atmosfera criada pelo governo de Mussolini, dando como exemplo a participação de seu filho, uniformizado, em uma parada fascista. Havia alguma convicção política neste ato?

Ele pode ter tido uma certa admiração pela organização que o Mussolini impôs na antes caótica Itália, mas nunca mais ventilou publicamente admiração pelo fascismo. Muitas pessoas nos anos 1930 admiravam Mussolini e Hitler, isto antes que começassem a mostrar o seu lado mais agressivo.

A maioria das biografias do artista afirma que antes de 1937 sua obra é dominada pela representação da realidade. A partir desse ano, Escher passa a dedicar-se à sua imaginação, trabalhando formas geométricas, estruturas matemáticas, continuidade, etc. É correta essa visão de duas fases distintas?

Sim e não. De fato, ele permite, nesta segunda fase, que a fantasia fique mais importante, mas em muitas obras segue um estilo realista, mas com assuntos inventados. Mas em todas as obras da primeira fase a imaginação tinha um papel importante. Ele sempre escolhia pontos de vista diferenciados, fazendo assim que existisse sempre um elemento de estranhamento, além de utilizar a perspectiva de uma forma inventiva. 

Quais fatos ou circunstâncias influenciaram a mudança de seu trabalho a partir de 1937?

Na obra Flor de Pascoa de 1921 ele já indicava claramente quais caminhos iria trilhar em sua carreira: natureza, perspectiva, eternidade, efeitos óticos, ladrilhamento, espelhamento, reflexo etc. Influenciado pela sua longa estadia na Itália, a natureza ficou em destaque, mas em pensamento já estava se preparando para abordar outros assuntos. A exposição quer justamente mostrar como a obra dele foi consequente. E que o fato das obras dos anos 1950 e 1960 serem mais conhecidas não quer dizer que o que ele produziu antes não era interessante. Boa parte da exposição é de obras anteriores, que são lindas.

Escher também aceitava trabalhos sob encomenda, para publicidade ou mesmo embalagens de produtos. Qual a relevância de seus trabalhos nessa área? 

Bem menor, mas alguns desenhos para selos postais e mesmo notas de dinheiro eram excelentes. Muitas obras eram ex-libris (que possuíam proprietário) que não permitem muita liberdade para o artista. Mas a família tinha que viver e vender gravuras não era suficiente até os anos 50. 

Qual o principal legado de seu trabalho? 

O mais importante da obra de Escher é que pessoas sem conhecimento da história da arte a adoram. São de fácil acesso. Ele abre a caminho para o público apreciar a arte. Mas ao mesmo tempo também pode ser admirado por especialistas e acadêmicos. E mesmo pelo total domínio das técnicas de gravura. Mas esta admiração mundial, muitas vezes por leigos, também faz com que, até hoje, exista uma certa desconfiança por parte dos profissionais do mundo da arte. Criticam o estilo convencional e as brincadeiras, como sendo algo de pouca importância. Pode até ser, mas a relevância de Escher reside justamente nesta capacidade de fascinar, divertir e ensinar. 

 

Serviço

O quê: O Mundo Mágico de Escher

Quando: de terça a domingo, das 9h às 20h, até 17 de julho de 2011

Onde: CCBB-SP – Rua Álvares Penteado, 112, Centro

Quanto: Entrada franca

 

Para entender: 

A xilogravura é uma técnica de impressão em relevo na qual uma imagem é esculpida na superfície de um bloco de madeira e reproduzida, principalmente, em papel. Já a litogravura segue processo inverso, com o desenho criado em relevo com um lápis gorduroso sobre uma pedra (calcário).

 

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