Reacionários vão às ruas de Paris protestar contra casamento para todos

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Publicado segunda-feira, 14 de janeiro de 2013 as 14:07, por: cdb
A França, branca e loira, com seus filhinhos bem vestidos, desceu às ruas neste domingo para protestar contra o casamento homossexual
A França, branca e loira, com seus filhinhos bem vestidos, desceu às ruas neste domingo para protestar contra o casamento homossexual

A França conservadora e reacionária ocupou as ruas de Paris, neste domingo, para protestar contra o casamento homossexual. Os dados da policia apontam para 340 mil manifestantes, os dos organizadores (igreja católica, partidos de direita e extrema direita) afirmam que eles eram 800 mil. Confiantes de seu sucesso, eles agora exigem um plebiscito, mas o governo socialista (da Social Democracia) afirma não ceder a este tipo de pressão, tendo em vista que esta questão não está prevista na constituição francesa, que prima pelo uso democracia parlamentar.

Esta é a segunda vez que a França conservadora vai às ruas. A última vez foi em 1984, na defesa da escola católica da qual o governo Miterrand queria retirar a ajuda publica. Em geral, a direita e seus aliados conservadores sempre criticaram esta tradição da esquerda francesa que faz da rua uma extensão da democracia. Todos os os grandes sujeitos societais levam a esquerda francesa, na sua multiplicidade e variantes, a descer às ruas. Mesmo se as reformas são submetidas ao parlamento, é na rua que os franceses protestam e gritam seu descontentamento, seja o governo de esquerda, seja o governo de direita.

A tradição do percurso da esquerda faz parte dos diferentes lugares que foram palco de lutas revolucionarias, lutas sociais. São lugares simbólicos de inúmeras conquistas sociais da republica francesa. Ou a passeata sai da Praça da Bastilha ou da Praça da República e vai, em geral, até a Praça da Nation ou Denfert.

Durante o governo do senhor Sarkozy, sua gestão foi marcada por monstruosas passeatas. A passeata em defesa da aposentadoria reuniu 2 milhões de pessoas. Mas Sarkozy sempre afirmava, como toda a direita, que nem as greves, nem a rua fariam seu governo ceder. Hoje esta mesma direita quer que o governo socialista retire de votação seu projeto.

Desta vez, a igreja católica tomou a frente do protesto. E este fato é significativo. Demonstra a oposição ferrenha que eles estão fazendo ao governo Hollande. Mesmo se os bispos dizem que a manifestação tem a representação das três grandes religiões (protestantes, mulçumanos e judeus), esses não foram expressivos no cortejo. A igreja católica mostrou sua força de organização, ela mobilizou sua vasta rede e muitos fiéis, e pode contar com o apoio dos partidos da direita e extrema-direita. Este é um fato histórico e, ao mesmo tempo, perigoso. A direita e a extrema-direita desfilaram juntas!

O que se viu nesta passeata era a presença de associações católicas integralistas e conservadoras. Estas, junto com as dioceses, foram os principais organizadores do protesto contra o casamento para todos. Eles alugaram mais mil ônibus e fretaram muitos trens, cinco ramas de TGV, a um custo colossal! No cortejo, via-se mais a França loura, branca, tradicional, com seus padres e bispos em batina preta, grandes famílias com seus filhos, a extrema-direita. Ali estava a direita unida na defesa dos mesmos valores.

Essa demonstração de força não teve apoio dos católicos de esquerda que respeitam a laicidade, muitos acham que não é o papel da Igreja intervir na legislação parlamentar, principalmente se o governo foi eleito com esta proposição. Muitos questionam porque a igreja não apoiou a mobilização de milhões de franceses que desfilaram nas ruas contra a reforma da Previdência Social e contra a privatização dos correios, entre outros exemplos. Eles pensam que as igrejas devem ficar neutras e não intervir nas questões governamentais, deixando aos fieis o direito de ser livre para apoiar ou não apoiar as reformas sobre a evolução da sociedade.

Dia 27 de janeiro será a vez das forças progressistas de ocuparem as ruas Paris.

Paris é isto, é a capital dos protestos. O francês gosta de reclamar de seus governantes se algo não lhes convêm, uma cidadania política mais expressiva nas ruas do que nas urnas. O número de abstenções nas votações oscilam entre 30 a 40 %. Uma democracia representativa que perde sua força popular. De quem é a culpa? Uma questão de um bom debate para o povo que mais adora a confrontação de idéias.

Marilza de Melo Foucher é economista, jornalista e correspondente do Correio do Brasil em Paris.