Raízes da exclusão

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Publicado segunda-feira, 8 de setembro de 2003 as 10:46, por: cdb

Nesta semana o Celam –  que é uma espécie de CNBB para toda a América Latina, realiza mais um encontro sobre a Dívida Externa, em Honduras, na América Central. A questão da dívida continua sendo um tormento para os países do terceiro mundo. A maioria deles caiu no conto dos empréstimos fáceis, na década de setenta, e agora está penando para pagar suas contas, que em vez de diminuir, vão aumentando.
           
O endividamento externo continua sendo um fator evidente de perturbação da economia mundial. A maneira como foi feito não tem nada de inocente, nem de meramente casual. Atribuí-lo ao jogo cego do mercado é tentativa de encobrir as responsabilidades políticas que estão na sua origem. Para desmascarar esta versão da inexorabilidade do mercado, nada melhor do que proceder a rigorosas auditorias, para apurar responsabilidades, que se encontram não só do lado dos governos ou empresas que tomaram empréstimos, mas também do lado dos que astutamente induziram os tomadores a aceitarem os empréstimos nas condições em que foram feitos.

O fato é que o endividamento dos países do terceiro mundo se transformou em suporte da especulação mundial. Por causa do forte endividamento, os países tem necessidade urgente de novos empréstimos para pagar suas prestações. Assim o dinheiro se torna mercadoria sobrevalorizada. Desta maneira aumenta a margem para a exploração, e o lucro dos especuladores ficam cada vez mais garantido, para prejuízo de quem trabalha para pagar suas dívidas.

 A dívida externa se tornou o fator mais importante para produzir a chamada “financeirização do capitalismo”.  Cada vez mais, quem define hoje os rumos da economia não são mais os empreendimentos produtivos, mas os detentores do capital financeiro, que auferem os maiores lucros, não pelo trabalho, mas pela exploração dos empréstimos financeiros. O forte endividamento mundial fornece o suporte para esta situação de especulação financeira.

As próprias instituições supra nacionais, criadas logo após a segunda guerra mundial para regular a economia mundial, como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, acabaram se tornando avalistas da agiotagem internacional.

É urgente exorcizar os pressupostos desta financeirização da economia. Uma prioridade evidente é re-equilibrar os termos das condições de amortização dos empréstimos, num arranjo que precisa produzir um consenso mundial, respaldado por vontade política que recolha o posicionamento firme que precisa ser costurado pela consciência cidadã em todos os países.

A dívida externa funciona para os especuladores como o diabo para os falsos pregadores. Sem ele, não teriam argumento para seus pretensos milagres. Sem a dependência causada pelo endividamento, os agiotas não teriam tantas oportunidades de exploração. Mas o pior é que o diabo pode ser fruto de fantasia, mas a dívida é real, e a especulação fatura alto em cima dela.

O primeiro suporte a ser removido é de ordem ideológica. Atribuir a regulação da economia à “mão invisível do mercado” é reafirmar o equívoco do determinismo histórico. E’ eximir o processo histórico das responsabilidades humanas. E’ colocar na conta de pretensas casualidades o que é astutamente tramado nos bastidores da corrupção, que produz os arranjos que canalizam as vantagens da economia para direções muito bem orquestradas.

 Estes arranjos que viciam a economia mundial acabam tendo respaldo nos organismos oficiais, onde recebem ares de legitimidade. A Organização Mundial do Comércio, por exemplo, acaba expressando o resultado dos que detêm o poder de impor suas vantagens, não a expressão do que seria melhor para a economia de todos os países.

Se a história é feita, não pelo acaso, mas por aqueles que a decidem, é cada vez mais urgente articular a participação consciente da cidadania universal, que precisa ser arquitetada com lucidez e determin