Quinta Carta às Esquerdas

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Publicado quarta-feira, 18 de abril de 2012 as 11:25, por: cdb

Porque é que a actual crise do capitalismo fortalece quem a causou?Porque é que a racionalidade da “solução” da crise assenta nas previsões quefaz e não nas consequências que quase sempre as desmentem? Porque é que estáser tão fácil ao Estado trocar o bem-estar dos cidadãos pelo bem-estar dosbancos? Porque é que a grande maioria dos cidadãos assiste ao seuempobrecimento como se fosse inevitável e ao enriquecimento escandaloso depoucos como se fosse necessário para a sua situação não piorar ainda mais?Porque é que a estabilidade dos mercados financeiros só é possível à custa dainstabilidade da vida da grande maioria da população?

Porque é que os capitalistas individualmente são, em geral, gente de beme o capitalismo, no seu todo, é amoral? Porque é que o crescimento económico éhoje a panaceia para todos os males da economia e da sociedade sem que sepergunte se os custos sociais e ambientais são ou não sustentáveis? Porque éque Malcom X estava cheio de razão quando advertiu: “se não tiverdes cuidado,os jornais convencer-vos-ão de que a culpa dos problemas sociais é dosoprimidos, e não de quem os oprime”? Porque é que as críticas que as esquerdasfazem ao neoliberalismo entram nos noticiários com a mesma rapidez eirrelevância com que saem? Porque é que as alternativas escasseiam no momentoem que são mais necessárias?

Estas questões devem estar na agenda de reflexão política das esquerdassob pena de, a prazo, serem remetidas ao museu das felicidades passadas. Issonão seria grave se esse facto não significasse, como significa, o fim dafelicidade futura das classes populares. A reflexão deve começar por aí: oneoliberalismo é, antes de tudo, uma cultura de medo, de sofrimento e de mortepara as grandes maiorias; não se combate com eficácia se não se lhe opuser umacultura de esperança, de felicidade e de vida. A dificuldade que as esquerdastêm em assumirem-se como portadoras desta outra cultura decorre de terem caídodurante demasiado tempo na armadilha com que as direitas sempre se mantiveramno poder: reduzir a realidade ao que existe, por mais injusta e cruel que seja,para que a esperança das maiorias pareça irreal. O medo na espera mata aesperança na felicidade. Contra esta armadilha é preciso partir da ideia de quea realidade é a soma do que existe e de tudo o que nela é emergente comopossibilidade e como luta pela sua concretização. Se não souberem detectar asemergências, as esquerdas submergem ou vão para o museu, o que dá no mesmo.

Este é o novo ponto de partida das esquerdas, a nova base comum que lhespermitirá depois divergirem fraternalmente nas respostas que derem às perguntasque formulei. Uma vez ampliada a realidade sobre que se deve actuarpoliticamente, as propostas das esquerdas devem ser credivelmente percebidaspelas grandes maiorias como prova de que é possível lutar contra a supostafatalidade do medo, do sofrimento e da morte em nome do direito à esperança, àfelicidade e à vida. Essa luta deve ser conduzida por três palavras-guia:democratizar, desmercantilizar, descolonizar. Democratizar a própriademocracia, já que a actual se deixou sequestrar por poderes anti-democráticos.É preciso tornar evidente que uma decisão democraticamente tomada não pode serdestruída no dia seguinte por uma agência de rating ou por uma baixa de cotaçãonas bolsas (como pode vir a acontecer proximamente em França).

Desmercantilizar significa mostrar que usamos, produzimos e trocamosmercadorias mas que não somos mercadorias nem aceitamos relacionar-nos com osoutros e com a natureza como se fossem apenas mercadorias. Somos cidadãos antesde sermos empreendedores ou consumidores e para o sermos é imperativo que nemtudo se compre e nem tudo se venda, que haja bens públicos e bens comuns como aágua, a saúde, a educação.

Descolonizar significa erradicar das relações sociais a autorização paradominar os outros sob o pretexto de que são inferiores: porque são mulheres,porque têm uma cor de pele diferente, ou porque pertencem a uma religiãoestranha.

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[Fonte: Visão].