Quem merece morrer?

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado sábado, 15 de setembro de 2001 as 13:23, por: cdb

“Os Estados Unidos merecem isso. Colheram o que semearam”, alguns estão dizendo por aí. Quem merece morrer? O telefone tocou em uma empresa de alimentos instalada no Estado de Nova Jersey, vizinho próximo a Nova York. Era a defesa civil requisitando dois caminhões de refrigeração gigantes. Os motoristas voltaram com a história que a televisão americana vai começando a mostrar. Os enormes refrigeradores seriam usados para empacotar pedaços de gente recolhidos dos escombros dos prédios que desabaram dia 11 de setembro. Os caminhões rodam para estádios, ginásios e rinques de patinação. Chegando lá, os dois motoristas encontram mais quarenta como eles, dirigindo mais quarenta refrigeradores de carne, requisitados de outras companhias. Centenas, milhares morreram. Cinqüenta mil pessoas circulavam diariamente pelas torres gêmeas; quantos conseguiram descer cem andares para escapar do perigo? Quem merece morrer? Ladrão? Assassino? Quem votou em quem matou? Uma de minhas três irmãs mora naquela cidade, que já visitei três vezes. Ela poderia estar entre os desaparecidos. Sua amiga, coreana, está. Nova York é como Londres… uma salada habitada por árabes (católicos, muçulmanos, judeus-árabes, como eu, muitos não sabem, mas isso existe), negros, mexicanos, brasileiros, cubanos, porto-riquenhos, alemães, italianos, bósnios, albaneses… É uma salada. Quem não ouviu falar da rua Brasil no coração de Manhattan?
É…, exilados de antigos regimes militares, apoiados pela CIA, nas Américas Central e do Sul, convivem lado a lado com exilados vindos de antigos comunistas, Rússia, Albânia, a antiga Iugoslávia, a atual China. Se realmente estavam os nascidos no Oriente Médio pilotando aqueles aviões, não mataram só americanos, mataram gente de sua gente. Aliás, quem são os americanos? Sioux? Apaches? Pueblos?… Um país como o nosso, formado por imigrantes italianos, japoneses, chineses, árabes.. São 28 milhões de estrangeiros vivendo neste país.
Quem merece morrer? Quem jogou as bombas de Hiroxima e Nagasaki? Não é o que pensam minhas vizinhas, quatro japonesas. E os que mataram milhares no agrícola Vietnã? Divido um apartamento com três vietnamitas que tinham seus parentes lutando contra os Estados Unidos, que conhecem famílias de dez filhos que perderam todos os dez. Eles não gostaram nada do espetáculo que viram pela televisão. Mas não querem mais morte. Que prendam os autores. E as bombas americanas, “cirúrgicas”, que mataram na Guerra do Golfo. Muitos iraquianos também vivem por aqui.. Tem até ex-general de Saddam Hussein.
Muitos torturados e torturadores. Esses também mereciam estar naqueles edifícios? E quem ajudou o governo do Afeganistão a lutar contra os russos? Até hoje recebo e-mails de meus amigos árabes, palestinos, libaneses… que conheci no curso de inglês para estrangeiros, na Universidade do Estado do Arizona (são centenas de cursos como esse espalhados pelo país). Um de meus amigos muçulmanos um dia puxou-me pelo braço, reclamando. Aliás, pela orelha:
– Kalili, você precisa rezar. Kalili..
E me arrastava em direção à mesquita, bonita, colada ao campus universitário.
Há pouco, morava em um condomínio recheado de árabes e indianos. Agora mudei para este lotado de gente da Coréia, Japão, China, Indonésia, Arábia Saudita, Índia etc.
No dia do ataque, passei horas tremendo de nervoso, ansioso. Linhas ocupadas, Internet congestionada… A cada vez que via as cenas dos aviões atingindo os prédios e as torres caindo, era fazer força para não chorar. Quando Cláudia me ligou, derramei a cachoeira.
É o país mais rico do mundo, mas é um país. Tem de tudo entre os 300 milhões de habitantes. E nós, estrangeiros, principalmente aqueles com cara de árabe, agora temos medo de sair à rua e topar com um americano ou outro estrangeiro intolerante, louco. Os mesmos loucos que não toleram nordestinos em São Paulo e queimam mendigo em Brasília Hoje, 13 de setembro, não pude entrar no coll