Quem é tirano?

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Publicado domingo, 23 de janeiro de 2005 as 19:45, por: cdb

Quando, a caminho da guilhotina, Mme. Roland fez a célebre exclamação (Liberdade, liberdade, quantos crimes se cometem em seu nome!) não poderia imaginar que a sua constatação de se confirmasse, como vem sendo confirmada nos dois séculos que se seguiram.

O presidente Bush, em seu discurso, reafirmou o seu propósito de continuar usando da força contra a tirania, na defesa da liberdade. Mas o que é tirania e o que é liberdade? Quem pode aferir o grau de liberdade dessa ou daquela sociedade, desse ou daquele indivíduo? Em qualquer lugar do mundo houve, há e, provavelmente haverá, pessoas que se sintam tiranizadas, e pessoas que se sintam absolutamente livres. Nem sempre os grilhões vencem o sentimento de liberdade, e nem sempre os que se consideram livres (até mesmo para matar, como foi o caso de Hitler e é o caso de Bush) são homens livres.

O governo de Saddam foi tirânico – e não foi tirânico. Entre todos os Estados da região, de maioria islâmica, era o que concedia mais liberdade a seus cidadãos, a começar pela liberdade religiosa. Seu chanceler e vice-presidente, Tarik Azis, era católico praticante. Ainda nestes dias, um bispo católico, o de Mossul, foi libertado pelos seus seqüestradores muçulmanos, confirmando a tolerância histórica do Islã para com as crenças irmãs. De todos os países islâmicos, o Iraque era o mais tolerante para com as mulheres, que podiam participar ativamente da vida econômica e da vida política. Tirânico é o regime saudita – e não consta que Bush pretenda arrasar Riad com suas bombas.

Em depoimento sobre o campo de extermínio de Auschwitz, um judeu e comunista francês, ainda sob o impacto do terror, disse, em seu justificável antigermanismo que se um dia os alemães se convertessem em democratas, não titubeariam em invadir os seus vizinhos, sob o pretexto de que a democracia dos outros seria inferior à democracia alemã.

O mundo inteiro deve colocar as barbas de molho. Como o conceito de tirania (como o de liberdade) é sempre relativo, Bush se sente autorizado a enviar os seus marines para qualquer ponto do mundo (nele incluído o Brasil), sob o pretexto de que a nossa liberdade é mais restrita e que o nosso sistema é tirânico. Não faltam pretextos: a miséria absoluta é uma forma tirânica de opressão.

A única forma de impedir isso é resistir à força com a força, como estão fazendo os militantes islâmicos no Iraque. Eles, sim, lutam pela sua liberdade, até mesmo a liberdade de preferir um tirano compatriota, como Saddam, a um libertador estrangeiro, como Bush.

Mauro Santayana, jornalista, é colaborador do Jornal da Tarde e do Correio Braziliense. Foi secretário de redação do Última Hora (1959), correspondente do Jornal do Brasil na Tchecoslováquia (1968 a 1970) e na Alemanha (1970 a 1973) e diretor da sucursal da Folha de S. Paulo em Minas Gerais (1978 a 1982). Publicou, entre outros, “Mar Negro” (2002).