Queda na circulação de jornais caiu em 12% segundo a ANJ

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Publicado sexta-feira, 13 de setembro de 2002 as 09:36, por: cdb

“Junho foi o pior mês de 2002 para a mídia impressa”. A afirmação de Maurício Augusto dos Anjos, coordenador do Subcomitê de Circulação da ANJ (Associação Nacional dos Jornais), é confirmada pela tendência de queda na circulação dos jornais, iniciada já no ano passado.
No primeiro semestre desse ano, o número de assinantes dos 22 maiores jornais do País recuou 12,0% em relação ao mesmo período de 2001. Em números absolutos, a queda foi de 1.401.596 exemplares. De 2000 para 2001, a circulação total dos jornais brasileiros caiu 2,7%, maior queda desde 1994, início do Plano Real, interrompendo um período de expansão iniciado em 1996. Os dados são do IVC (Instituto Verificador de Circulação).

Embora esteja ancorado na retração econômica, especialistas acreditam que o quadro não é resultante unicamente de um declínio do poder aquisitivo da população. Fatores como perda de credibilidade do produto jornalístico, mudança de hábito dos leitores ou ainda inserção de novas mídias no bolo incidem verticalmente sobre os números. E no desabamento da circulação, a qualidade do conteúdo e a imparcialidade do jornal correm o risco de serem atingidas.

A “estagnação” tem afetado principalmente “jornalões” como o “Estado de S. Paulo” e a “Folha de S. Paulo”. Em junho de 2001, o Estadão registrava circulação de 432.402 exemplares aos domingos. Em junho deste ano, porém, edição dominical não ultrapassou os 330.162 exemplares, uma variação negativa de 23,6%. Nem os diários mais novos, como o “Agora São Paulo” e o “Diário de São Paulo” escapam da crise. Comparando junho de 2001 com o mesmo mês de 2002, a circulação do “Agora” nos dias úteis caiu de 111.424, em média, para 85.669 exemplares.

“Há uma grande relação entre o PIB, a circulação e o poder aquisitivo dos leitores”, afirma Augusto dos Anjos, que também é diretor de Circulação do jornal “Estado de Minas”. A alta do dólar encarece o preço do papel, acarretando subida de preço dos jornais, que repassam os custos ao consumidor. Estes, por sua vez, deixam de adquirir o produto e a circulação despenca.

Pela série histórica, em grande parte, o aumento de circulação ocorrido em 2000 pode ser atribuído ao crescimento do Produto Interno Bruto, que ultrapassou os 4% naquele ano. Da mesma forma, a retração registrada em 2001 apresenta pontos de contato com o comportamento do PIB, cujo crescimento ficou limitado a 1,5.

Além da variação do PIB, ele atribui o desempenho negativo do primeiro semestre, especialmente do mês de junho, a uma Copa do Mundo da Coréia e do Japão, cujo fuso horário dificultou a cobertura pela mídia impressa brasileira. “Os jornais se tornaram dispensáveis nesse período, pois os resultados dos jogos eram divulgados antes pela TV e pela Internet”, acrescenta.

Segundo o diretor da ANJ, a série histórica dos números relativos à circulação refletem a concorrência entre os jornais e a entrada de novos meios, que acabam por mudar os hábitos das pessoas quanto à aquisição de informações. Em 94, quando foi registrada uma das maiores quedas na venda dos jornais, a TV a cabo despontava no país. Já em 96, foi a vez da internet alcançar maior popularidade entre os leitores.

Além da perda de receita com a queda da circulação, as empresas jornalísticas vêem a crise se agravar com a diminuição da venda de anúncios publicitários.

Segundo pesquisa do projeto Intermeios, da “Revista Meio e Mensagem”, os investimentos das agências nos jornais caíram de R$ 276,06 milhões, no primeiro bimestre de 2001, para R$ 263,21 milhões, no mesmo período de 2002.

Apesar dos números, Augusto dos Anjos mantém perspectivas positivas para o setor. “O quadro não passa de um movimento sazonal. A circulação e a situação das empresas jornalísticas tendem a melhorar no ano que vem. Com a eleição, as pessoas passarão a comprar jornal com mais freqüência para se informarem sobre as mudanças no país”, afirma.

Especialista vê baixa circulação como álibi para a entrada de capital estrangeiro