PT discute se adota o socialismo como forma de governo

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Publicado segunda-feira, 15 de outubro de 2001 as 13:02, por: cdb

O PT retoma nesta segunda-feira a discussão sobre ser ou não ser socialista. Em seminário com o tema “A luta pelo socialismo no século 21”, parte de um ciclo iniciado no primeiro semestre, o partido volta a mexer no vespeiro de definir se, apesar das amplas alianças, da defesa de metas de inflação e de acordos com o FMI, pode ainda ser associado às idéias que consolidaram o socialismo no mundo.

Essa realidade deverá novamente se mostrar presente nesta segunda-feira, em debate que contará com um dos principais intelectuais da ala moderada do partido, o secretário de Cultura da cidade de São Paulo, Marco Aurélio Garcia, e um dos mais atuantes porta-vozes dos radicais, o 3º vice-presidente da legenda, Valter Pomar. O professor Juarez Guimarães, da Universidade Federal de Minas Gerais, também participa.

O primeiro e espinhoso passo é definir o que é socialismo, termo que costuma ser usado por petistas de todas as cores. “Muita coisa cabe na definição”, diz Garcia, para quem o socialismo passa longe da concepção bolchevique, de destruição do capitalismo.

“Socialismo para mim equivale a pós-capitalismo, um estágio de superação do que existe hoje”, declara. Segundo Garcia, o PT não propõe um governo socialista, mas um programa de mudanças “que instaure uma dinâmica própria no país”.

“Propomos reformas econômicas, sociais e políticas que se chocam com certos aspectos fundamentais do capitalismo e resultam em distribuição de renda e socialização do conhecimento.”

O seminário, para ele, não tem o caráter de “compensar” a militância pelos movimentos acelerados rumo ao centro que o partido tem adotado. “O PT é um partido que pensa. Não podemos fazer uma marcha cega, temos de nos guiar por determinados valores. Esse é o sentido do seminário”, diz.

Grosso modo, as posições de Garcia traduzem o pensamento da cúpula moderada do PT, que tenta se equilibrar na corda bamba, defendendo o socialismo ao mesmo tempo em que nega a destruição do capitalismo. É a facção, majoritária, de Luiz Inácio Lula da Silva, José Dirceu, e Marta Suplicy, entre outros.

Na corrente oposta, Pomar, representante da minoria radical _quer perfaz 30% do partido_ diz que muitos dos que se definem como socialistas no PT são, na verdade, social-democratas.

“Doutrinariamente, defendem liberdade, mercado, e Estado controlando os excessos da propriedade privada. Mas não mencionam a propriedade coletiva nem a eliminação do capitalismo”, diz.

Para ele, a maioria do partido enxerga que o socialismo é uma estratégia de longo prazo, que não está na ordem imediata do dia e muito menos na agenda de 2002. “A prioridade deles é chegar ao poder e eliminar o neoliberalismo, nem que tenham de se aliar a setores do empresariado e a partidos que não são de esquerda, como o PL”, diz Pomar, que é contra a estratégia. “Combater a doutrina neoliberal não basta.”

O seminário sobre socialismo é promovido pelo PT, pela Fundação Perseu Abramo (seu órgão de estudos políticos) e pelo Instituto Cidadania (ONG de Lula). Até 19 de novembro, haverá outros quatro debates.

Nesta segunda-feira, na sede do partido, no centro de São Paulo, haverá o lançamento de do livro “Globalização e Socialismo”, de Maria Conceição Tavares, Emir Sader e Eduardo Jorge.