Protesto contra reforma previdenciária reúne 400 mil em Paris

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Publicado domingo, 25 de maio de 2003 as 15:53, por: cdb

Protestos contra os projetos governamentais de reformar o sistema previdenciário e descentralizar a educação da França levaram às ruas de Paris neste domingo entre 400 mil (segundo a polícia) e 1 milhão de pessoas (de acordo com os sindicatos organizadores), que pedem que o governo recue nos principais pontos e que aceite negociar com os trabalhadores.

Para evitar problemas de segurança, a manifestação, que começou às 7h (horário de Brasília), foi obrigada a se dividir em três frentes.

A França vive um momento social tenso. A manifestação deste domingo – a terceira em grande escala neste mês – tem como objetivo se opor às reformas propostas por François Fillon, 49, ministro das Relações Sociais e do Trabalho.

Outro importante alvo dos protestos deste domingo é o projeto de descentralização da educação francesa, proposto pelo ministro da Educação, Juventude e Pesquisa, Luc Ferry, 52, ex-editorialista da revista semanal Le Point.

Os sindicatos já preparam uma nova paralisação para a próxima terça-feira e uma greve geral dos transportes públicos na primeira segunda-feira do mês de junho.

Protesto

Durante todo o fim de semana, outras cidades do pais também se mobilizaram para protestar contra as reformas.

Em Marselha, entre 10 mil e 40 mil pessoas participaram da manifestação, segundo a polícia e os sindicatos, respectivamente. Em Avignon, entre 10 mil e 18 mil; em Toulon, 8.500 e 20 mil; e em Bordeaux, 7.000 e 20 mil.

Para o secretário-geral da CGT (Confederação Geral dos Trabalhadores), o maior sindicato da França, Bernard Thibault, o grande problema é que o governo se recusa a fazer concessões.

– Se o governo não quiser reabrir as negociações e insistir em aprovar as reformas à força, nós voltaremos a planejar outras formas de ação.

Marc Blondel, presidente da Força Operária, outro dos quatro sindicatos organizadores, afirmou antes do início das passeatas que o dialogo ainda é possível, mas advertiu que estão prontos para uma greve na próxima terça-feira.

O Ministério das Finanças tenta justificar as medidas, afirmando que todos os sistemas de aposentadoria do país atingirão um déficit de 50 bilhões de euros em 2020. O valor dobraria em 2040.

A razão desse aumento desproporcional é o envelhecimento médio acentuado da população francesa. Em 2006, por exemplo, a geração nascida no pós-guerra, período que enfrentou uma explosão populacional, começará a entrar no sistema previdenciário, que ficará ainda mais sobrecarregado.

Para evitar isso, Fillon propõe, entre as principais modificações, aumentar o período de contribuição dos funcionários públicos de 37,5 para 40 anos, além de aumentar o tempo de trabalho da população ativa de 40 para 42 anos. Sem contar que as contribuições, de acordo com os respectivos setores, ficarão ainda mais caras.

Contribuição

Para o conselheiro de educação Emile Roubertio, esse projeto não corresponde à realidade. “Há dez anos, nossa contribuição aumentou duas vezes o valor”, diz Roubertio, referindo-se à primeira grande reforma aplicada pelo então primeiro-ministro François Balladur.

– Nossa proposta é que consigamos aumentar o financiamento para as aposentadorias combatendo o desemprego, o que geraria consequentemente mais contribuição. E não há dúvida que as empresas poderiam contribuir mais.

O motorista de trem Jean Jacques Delmas afirma que o objetivo dos protestos é provocar um grande debate nacional.

– Não aceitaremos que a nova quotização seja calculada pelos salários, e sim pela riqueza das empresas, afinal somos nós, trabalhadores, que a produzimos – afirma Delmas.

Ele afirma não entender “como um país rico e integrante do G8 (grupo dos sete países mais ricos do mundo e a Rússia) não tenha condições de pagar seus aposentados”.

O pesquisador Mathieu La Motte, que já morou cinco anos no Brasil, afirma que as reformas são necessárias, mas discorda do caminho adotado pelo governo.

– Deve-se procurar uma forma