Protesto contra Miss Mundo deixa no mínimo 12 mortos

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Publicado quinta-feira, 21 de novembro de 2002 as 23:32, por: cdb

Pelo menos 12 pessoas moreram em violentos protestos na cidade de Kaduna, no centro-norte da Nigéria, contra o concurso Miss Mundo, que deve ser realizado em dezembro na capital do país, Abuja.

Alguns relatos indicam que o número de mortos pode passar dos 50. Segundo os médicos, pode haver corpos sob os escombros.

A Cruz Vermelha informou que mais de 200 pessoas ficaram feridas. O governo da Nigéria decretou toque de recolher em Kaduna, que fica ao norte da capital.

Ao longo do dia, jovens muçulmanos extremistas ergueram barricadas com pneus em chamas, incendiaram casas e atacaram várias igrejas cristãs no bairro de Tadun Wada.

Medo

O correspondente da BBC em Kaduna, Yusuf Sarki Muhammad, disse que pelo menos 5 mil jovens participaram dos protestos.

O ativista de direitos humanos Shehu Sani disse que a violência nas ruas fez com que escolas e o comércio na cidade permanecessem fechados nesta quinta-feira. “Ninguém quer sair de casa”, disse.

Tadun Wada é dividido em áreas cristãs e muçulmanas. O bairro foi palco de confrontos dois anos atrás, em que mais de 2 mil pessoas morreram.

Os protestos contra o concurso de Miss Mundo começaram na quarta-feira, quando muçulmanos radicais incendiaram a sede de um jornal na cidade de Kaduna, no norte da Nigéria.

O jornal havia publicado um artigo dizendo que o profeta Maomé teria se casado com a Miss Mundo se ainda estivesse vivo.

Centenas de pessoas, gritando “Allahu Akbar” (Deus é grande), atacaram a sucursal do jornal This Day em Kaduna.

Jornalistas afirmam que a região de Kaduna é considerada uma das mais instáveis da Nigéria, por causa das grandes populações cristãs e muçulmanas.

Há dois anos, mais de 2 mil pessoas morreram em confrontos entre as duas comunidades na cidade, e o conflito só foi interrompido depois da intervenção do Exército.

Revolta

A mais recente agitação começou depois que o jornal publicou uma notícia no sábado, dizendo que até o profeta Maomé se casaria com uma das concorrentes.

Os bombeiros apagaram o fogo no This Day, mas de acordo com o correspondente da BBC em Kaduna, Yusuf Sarki, a situação continua “caótica”.

Os escombros estão por toda a parte, junto aos restos de móveis quebrados e pedaços de jornal queimados, e o escritório da sucursal está sendo vigiado pela polícia.

Ninguém ficou ferido, mas a equipe de jornalistas continua escondida com medo de novos ataques.

Sarki disse que as mesquitas locais têm articulado ações contra o jornal desde terça-feira. Segundo o jornalista, as primeiras pessoas foram avisadas da notícia por mensagens em seus celulares.

O jornal voltou atrás sobre a notícia e publicou um pedido de desculpas por dois dias seguidos.

Testemunhas contaram à agência de notícias Reuters que os revoltosos prometeram atacar os escritórios do This Day em toda a região norte do país.

Apedrejamento

O concurso Miss Mundo vem acontecendo na Nigéria há várias semanas, mas apenas no sul, que tem maioria cristã e animista.

Grupos muçulmanos dizem que o concurso é contra a religião islâmica.

O evento também foi ameaçado de boicote pelas próprias concorrentes, que protestavam contra a decisão de um tribunal que condenou Amina Lawal, uma mulher acusada por adultério, à morte por apedrejamento.

O governo da Nigéria interveio, e garantiu que nenhuma nigeriana será apedrejada.