Prostitutas e viciados comemoram pedido de prisão de policiais

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Publicado sexta-feira, 14 de dezembro de 2001 as 03:40, por: cdb

Prostitutas, traficantes, consumidores de crack e funcionários de bares e hotéis próximos da Estação da Luz, na região central de São Paulo, comemoravam nesta quinta-feira o pedido de prisão temporária de cinco investigadores do Departamento de Investigação sobre Narcóticos (Denarc). Os policiais civis são acusados de controlarem o tráfico na região e agredirem viciados e garotas de programa.

Poucos carros de polícia passaram pelas ruas da Cracolândia entre meia-noite e 3 horas. Viciados em crack acendiam seus cachimbos livremente a alguns quarteirões da sede do Departamento de Investigações Contra o Crime Organizado (Deic), na Rua Brigadeiro Tobias. As pedras têm preço tabelado: R$ 10,00 – mesmo valor cobrado pelas garotas de programa.

Poucos freqüentadores das ruas da região comentavam as denúncias contra os policiais Hélio Carlos Barba, Guilherme Barbosa Palazo, Alessandro Ramos da Silva (o Japonês), José Carlos Castilho e Mauro César Bartolomeu. “Todo mundo sabia da história, mas ninguém vai falar”, disse o recepcionista de um hotel.

Uma garota de programa, sentada em um degrau da calçada, conversou superficialmente sobre as acusações contra os policiais, embora não tenha desmentido as denúncias de que achacavam prostitutas.

Mas foi só a primeira viciada falar da prisão dos policiais para outros consumidores contarem as violências cometidas principalmente por Barba, considerado o mais agressivo do grupo. Um deles relatou violência sexual, enquanto outro citava sessões de afogamento e agressões físicas. “Ele me furou com estilete, deu um chute no rim e me ameaçou de morte”, afirmou R. N., uma jovem morena de 15 anos que, quando foge de casa, busca abrigo na Rua Mauá e refúgio no crack. M. A. B., mulher de 39 anos com aparência de 50, lembrou que Barba era chamado de “Que Susto!”.

Alguns metros adiante, um consumidor de cerca de 18 anos, de cabelos bem cortados e olhos “vidrados”, imaginava um enfeite de natal para a Rua Mauá. No mundo virtual do rapaz, uma faixa amarela como suas roupas celebraria a prisão de Barba.

A lista de violências atribuídas pelos viciados é extensa. Em um vídeo gravado por promotores do Grupo de Atuação de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público Estadual (MPE), autores da denúncia contra os policiais, o investigador aparece alvejando uma mulher com o extintor do carro. Os consumidores mencionam outras “manias”, como atirar com espingarda de chumbinho, ferir pessoas com estiletadas, deixá-las nuas e queimar as roupas. Há ainda quem teve os cabelos cortados à força por Barba.

R. Z. S. L., pernambucano de 34 anos que vive há sete na chamada Cracolândia, foi um dos feridos com tiros de chumbinho. As marcas pelo corpo, a sujeira e os rasgos das roupas e do boné deixam claros os problemas que o vício e a vida na rua lhe reservam diariamente. “Ele (Barba) sempre foi o pior. Os outros iam apenas pelas idéias dele”, relatou.

Aliviado com o “sumiço” do policial, o pernambucano mantém a esperança de um dia voltar a ser músico e reencontrar os dois filhos, que vivem no interior. “Penso nisso todo dia que vou me alimentar.” Nas próximas semanas, porém, teme que alguém venha a ocupar o lugar deixado pelos cinco policiais. “Vão vir outros, você vai ver.”

Mas nas ruas da Cracolândia ainda há espaço para que um dos policiais seja levado em boa conta pelos viciados, principalmente pelos que apanharam e foram humilhados por Barba. “O Castilho não merecia ser preso, não”, disse M. A. B. “O Barba chegava gritando: Sai da área, nóia (viciado)! Sai, lixo! O Castilho dizia para gente dar um rolê (volta), que não queria função (viciado) no pedaço e falava para sair. Ele só dava canseira se abusassem.”