Primeiros casos de cólera no sul do Iraque pode desencadear epidemia

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Publicado quinta-feira, 8 de maio de 2003 as 17:38, por: cdb

Montanhas de lixo acumulado, o abastecimento de água contaminada e o esgoto a céu aberto provocaram o surgimento dos primeiros casos de cólera no sul do Iraque, desencadeando receios de uma epidemia potencialmente devastadora.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) confirmou, nesta quinta-feira, que quatro pessoas contraíram a doença em Basra e que outras dezenas também podem estar com cólera.

Ainda não há registro de mortes, mas as autoridades sanitárias dizem temer que o problema já esteja alcançando proporções de epidemia.

O porta-voz da OMS, Ian Simpson, alertou que a falta de água potável e de segurança, aliada aos problemas econômicos, está favorecendo o rápido alastramento da doença no Iraque.

– O cólera tem uma taxa de mortalidade de mais de 50 por cento quando não é tratado. Este é, provavelmente, o receio mais sério em termos de saúde no Iraque neste momento – observou.

Infecção intestinal que provoca diarréia aguda, o cólera pode causar desidratação grave e, em casos mais sérios, até a morte.

A doença, entretanto, pode ser tratada e evitada facilmente. O problema é que as condições sanitárias em Basra impedem o combate ao cólera.

– Se tivermos 17 casos já confirmados, pode-se esperar um contingente 10 vezes maior de contaminados -, declarou o epidemiologista Denis Coulombier, da OMS.

O porta-voz das Nações Unidas em Basra, David Willhurts, disse que médicos vêm relatando um aumento no número de casos de diarréia.

– Eles estão tentando tratar dos casos entre as crianças mais novas. O Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) está envolvido ativamente na limpeza das ruas, com a contratação de caminhões para retirar o lixo – acrescentou.

Na corrida contra o tempo, a OMS ainda enfrenta outros obstáculos. Os testes de laboratório que detectam se uma pessoa tem ou não cólera precisam ser enviados ao Kuwait porque os equipamentos dos hospitais de Basra foram roubados durante a onda de saques que se seguiu à queda do regime iraquiano.

Funcionários de hospitais lembram que podem cuidar apenas dos sintomas da doença – e não a causa, que é claramente o abastecimento de água da cidade. Além de o esgoto não ser tratado, a população usa água do rio Chatt Al Arab, que está poluído.

Para piorar a situação, veículos que transportavam agentes sanitários foram roubados e um armazém foi saqueado.

O administrador civil interino do Iraque, o general reformado norte-americano Jay Garner, diz que os esforços de reconstrução focalizarão primeiramente o sul do país, uma vez que a região “é vítima de três guerras, uma rebelião e de um tratamento de tortura perpetrado durante 30 anos por Saddam Hussein”.