Presidente Prudente previa aumento da violência

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Publicado segunda-feira, 17 de março de 2003 as 20:13, por: cdb

O assassinato do juiz Antonio José Machado Dias confirmou o alerta das autoridades de que a violência cresceria na região Oeste Paulista com a contrução dos 11 presídios nos últimos cinco anos em municípios próximos a Presidente Prudente. São 18 mil detentos distribuídos por 13 penitenciárias, num raio de 150 km.

Com a transferência dos presos da antiga casa de Detenção para o Interior, a jurisdição passou a ser regionalizada e novas varas criminais foram criadas para atender à demanda de processos.

Excesso de presos compromete reeducação

Segundo Mário Coimbra, Promotor das Execuções Criminais de Presidente Prudente, o número de presos recebidos ultrapassa em muito o número de varas criadas e os juízes acumulam 6 mil processos cada um. Só na região que reúne as cidades de Martinópolis, Presidente Bernardes, Presidente Venceslau e Presidente Prudente, todas sob a jurisdição de Presidente Prudente, existem hoje oito presídios.

Uma das conseqüências é a queda da qualidade da reeducação penal. De acordo com o promotor não há emprego para todos os detentos. Antes da demolição da Casa de Detenção de São Paulo e a chegada de 8 mil novos presos, 70% dos presidiários tinham ocupação em oficinas montadas dentro da cadeias através de convênios com empresas de móveis, marcenaria, materiais para festas e de bolas de futebol.

Outra conseqüência apontada pelo promotor é o aumento da criminalidade feminina, com mulheres que passam a se relacionar com presidiários e acabam se envolvendo em crimes para ajudar o companheiro.

Conseqüências sociais

A Assistente Social do Fórum de Junqueirópolis, Selma Regina de Andrade, confirma as informações e acrescenta que as mulheres passaram a ter um contato que antes não existia. “As relações mudaram e recebemos muitos casos de mães que abandonam os filhos nos fins de semana para passarem o dia nos presídios da região”, revela.

Outro efeito negativo da concentração de penitenciárias destacado pelo promotor Mário Coimbra é o estímulo à criminalidade fora dos presídios por parte dos presos que reincidem no crime. Fora isso há um aumento da pobreza, com a migração de famílias que se estabelecem nas cidades da região por terem poucas condições de viajar para visitar o parente preso. “Nós temos observado um aumento do número de cortiços depois que os presídios se instalaram”, afirma.

O orçamento previsto para a compra de equipamentos, uniformes e até alimentação fica defasado com o crescimento do número de detentos. As verbas disponíveis hoje são 40% inferiores ao necessário e o promotor enxerga um segundo semestre pior. “Acho que a situação ainda vai ficar pior pois a verba pedida nunca é aprovada e o défícit de vagas vai crescendo a cada dia”.

População teme vinda de bandidos

O medo da população quando passa a conviver com os presídios é de que outros bandidos, atraídos por um líder, se estabeleçam nos municípios. É o caso do traficante Fernandinho Beira-Mar que desperta o medo na comunidade da região.

“A população do Interior não está acostumada com presídios. As pessoas não têm medo que o Beira-Mar fuja, pois o presídio é de segurança máxima, mas das pessoas que ele vai atrair para a cidade”, afirma o promotor.

Coimbra também não acredita que o traficante ficará na região por apenas 30 dias, já que nenhum estado quer recebê-lo. “É de interesse do governo federal que ele continue aqui pois assim estará isolado no presídio de maior segurança do país”. A solução do problema, na opinião do promotor, é a União assumir uma parcela dos presos, pois
o estado não poderá suportar os custos, que são altíssimos.